segunda-feira, 7 de abril de 2008

FORAGIDOS













Oi Amigos!
Há dias maravilhosos, para se ler um livro, tomar uma sopa e um chá verde quentinho; hoje é um deles!
A chuva não para de cair; ora leve, quase um chuvisco, ora forte e com vento; chegou uma frente fria, o sol não terá menor chance.
Que dia é hoje? Não importa, posso ser atemporal através das palavras, avançar e retroceder nas histórias; aqui sou dona do meu próprio tempo...
Sinto-me renovada garimpando fatos antigos e sentimentos guardados, nesses vôos da memória revejo lugares, pessoas, percebo cheiros, sons e posso me transportar para momentos específicos.
Hoje achei uma foto do “Casarão” na Internet; me bateu uma emoção gostosamente esquecida; ver lugares que foram fundamentais para as escolhas que fiz na vida, me serviu de aconchego.
E o tempo voa; minha filha fez vinte e dois anos; é uma pessoa tranqüila, zen, e muito especial para mim, mais do que filha é minha amiga, e muitas vezes minha mãe. Ela é meu norte, parece comigo, tem uma natureza tímida, é boa; meio punk como eu, vive entre a seriedade do trabalho e do estudo e a jovem boemia dos finais de semana; acabou de tatuar nas costas uma flor de Liz, tem um gênio bom e é ‘decidida’ como a mãe. Desejo-lhe toda a sorte de maravilhas do mundo, que ela possa como eu, ter direito de escolha em mundo tão cerceador, que estude para ser aquilo que almeja, que sempre escolha o homem com quem deite; aprenda a amar sem medo, e acima de tudo seja feliz!
Acendo um cigarro e lembro...



Trabalhar não me afastava dos questionamentos internos, dos medos; mascarava-os; escondia-os, mas estavam lá me espreitando: ‘Como será minha vida?’ ‘Será que vou viver sempre pelas vagas e quartos vida afora?’ ‘O que me espera?’ E como não tinha resposta para nenhuma daquelas perguntas que me deixava frágil e insegura; enfiava a cara no trabalho.
Dividimos irmamente o trabalho; mais ou menos seiscentos internos para cada uma e começamos a fazer um a organização na papelada. Separamos as anotações por Varas Criminais e o primeiro passo era fazer um levantamento na jurídica da Senador Dantas, localizar as fichas de término de pena; se fosse pequena copiávamos, se grande tirávamos xerox; cruzávamos as informação com os prontuários e depois íamos para o fórum já sabendo por onde começar.
Perguntem a qualquer estagiário como é o trabalho no fórum; de vara em vara, um sobe e desce de andares, disputando informação; hoje o trabalho está simplificado, informatizado; antes era pedreira; a nossa facilidade era podermos entrar nas dependências do cartório, por sermos estagiárias do estado. Tempo bom de muita poeira, de pilhas e pilhas de processos, “de abrir o fórum”; quando chegávamos às dez horas da manhã, pela garagem, para trabalhar na Vara de Execuções - VEP; antes, de o cartório ser aberto; e tudo virar um caos; e “de fechar o fórum”; quando saíamos tarde da noite, cheias de papéis e uma alegria que só a juventude é capaz de ter depois de horas e horas em pé.
Pirmeiro passo na VEP, era saber se o processo tinha alguma dependência; outro(s), processos em andamento; ir as respectivas varas se houver dependência e esclarecê-las, anotar na ‘xerox’ da ficha de término de pena da jurídica e pedir o carimbo e a rubrica do funcionário que prestou as informações; depois com a informação oficiávamos a vara de origem para ela enviar esses dados para VEP, para que ela tomasse ciência da situação jurídica do condenado e o processo pudesse ir ao cálculo. Só com o cálculo de pena homologado pelo Juiz era que o processo começava a andar e podíamos pleitear benefícios; processo sem dependência, nem cálculo é processo parado.
O trabalho requeria estratégia; as fichas dos presos eram selecionadas por varas, depois, localizávamos o corredores e o andar, dos respectivas cartórios; e então ‘caíamos matando’ nos corredores; uma para cada lado, e tome esclarecimentos, assinaturas, carimbos; trabalho pra caralho; no final do dia; pernas doídas; nos reencontrávamos na Execuções; às vezes íamos para casa, outras para a Senador Dantas e saíamos noite alta, colocando as informações em ordem, alimentando os prontuários e as fichas com as informações colhidas.
Não havia tempo sequer para ir a cabelereira ou na manicura; antes, quando morava com os meus tios e fazia estágio na área civil; ia para fórum arrumada; saia, blusa, scarpans salto sete, e meia-calça; tempo de atividade menos cansativa; agora era calça jeans, blusão, e o velho Allstar, para suportar subir nas estantes atrás de processos e facilitar as andanças pelo fórum.
Não foi fácil esclarecer aquele monte de situação jurídica, levamos mais tempo do que prevíamos; e duas semanas de ralação depois; conseguimos ter a situação jurídica de quase todos internos, poucos ficaram sem respostas, eram processos aguardando algum esclarecimento.
Com o diagnóstico feito ficamos sabendo quantos tinham direito, a condicional, a comutação, ao regime semi-aberto, etc. os casos de alvará de soltura tinham prioridade e já tinham sido providenciados; agora era chamar um por um explicar os seus direitos; face, a nova lei. Primeiro levantamento ver quem era o preso, quais realmente podíamos atender e orientar aos que tivessem advogados a procurá-los.
Nunca tínhamos trabalhado tanto, mais começamos a colocar a jurídica no lugar; Milton também não se deu trégua, arregaçou as mangas e caiu dentro; ele descia uma vez por semana ao continente e agilizava os benefícios; nós que ficávamos sem descer duas ou três semanas, organizávamos os arquivos, atualizava as fichas de atendimento, fazíamos pedidos de benefícios; esse ritmo durou uns dois meses até que conseguimos normalizar os atendimentos.
O estagiário quando entrava no sistema; durante o treinamento, era orientado a se portar com o preso de forma distante e respeitosa: - Nada de pena, ali não há santos; simplesmente faça o seu trabalho. Mas nós não éramos assim, víamos pessoas; e sempre achamos que educação, trabalho e respeito transformariam o sistema penitenciário.
Continuo achando.

Nanastê!

domingo, 6 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Foto Philippe Sainte-Laudy)

06/04/08

Olá Companheiros!
Não sei como vai o dia de vocês, mas o meu está azul e de onde estou, posso ver o horizonte e sentir a tranquilidade do mar que há em mim!
Que todos nesse domingo possam navegar sem medos pelos seus próprios oceanos!!!
Acendo um cigarro e penso como a vida passa rápido, e tudo acaba sendo um grande apanhado de lembranças, ora engraçadas ora sofridas, mas uma herança intransferível, herança de emoções sentidas, beijos dados, sofrimentos dramáticos, momentos cômicos; memórias que só o tempo consegue conosco dividi-las!



A Pastoral Penal, possuía uma casa na Vila, nela moram três freiras, Irmã Maria Rosa, pequena e meiga, olhos doces e bondosos, voz mansa, moça muito bonita; outra era mais séria e que parecia enfezada, chamava-se Irmã Francisca, era nordestina, dura, forte, mas também com um coração bom e a última; alta e grande, chamava Irmã Maria Emília, a palavra com que a defino é; acolhedora; era forte como uma árvore e meiga. Elas possuíam um jeep toyota, que era dirigido por um interno, cuidavam do ambulatório e serviam como enfermeiras, e de tudo um pouco.Ficaram felizes, quando descemos do ônibus na porta delas, cheias de mochilas e falamos:
- Viemos trabalhar!
Irmã Maria Emília: – Eu sabia que vocês iam voltar.Trocamos um dedo de prosa e, prometemos voltar com mais calma para conversarmos e saber como podíamos ajudar e ser ajudadas por elas, logo depois chegou um guarda, deu uma força com as bagagens e nos levou para um imóvel perto da praia; usado para acomodar os visitantes; chamava-se “casa de visitas”, ali tomaríamos banho e dormiríamos, ficava na rua lateral da casa do diretor; a cozinha dali estava desativada e as refeições seriam feitas na casa em frente.Desfizemos as bagagens, tomamos banho; e começamos a separar o material de trabalho que usaríamos no dia seguinte, e fomos descansar um pouco.
A viagem até ali era uma aventura que começava de madrugada; acordávamos às duas horas, e cada uma ia da sua casa para rodoviária; mochilas e pastas, depois de "pastar" esperando ônibus na madruga, chegávamos às quatro e meia, mais ou menos na rodoviária, pois, o nosso ônibus (EVAL) saía às 05:00hs, para Mangaratiba; esse era o último horário possível de pegá-lo sem que perdêssemos a barca que saia às 09:00 h. em ponto, do cais de Mangaratiba rumo ao Abraão.
Do Abraão éramos levadas ao outro lado da ilha, de caminhão da unidade ou no da PM; depois de uma hora e vinte sacolejando na estrada terra, chegávamos à Vila dois Rios; mortas.
Apesar de ser uma viagem agradável; era cansativa; dormimos o resto da tarde, até que a fome nos acordou e saímos para ver como seria aquela história de comer na casa do vizinho.
O "Casarão"; assim era chamada a casa, que ficava no centro de um terreno, com jardins na frente e nas laterais, possuía janelas em todos os cômodos e de quase todos eles se via o mar; ocupava o quarteirão e possuía dois andares; uma construção sólida; bela.
A iluminação da rua era fraca, e espaçada, o que dava ao lugar um ar de filme noir; Humphrey Bogart, Ingrid Bergman; um quê de ilha do caribe na década de quarenta, de o mar batia há alguns metros a frete e as ondas cantavam orgulhosamente; um paraíso; morará ali pro resto da vida! Ah, o que não pensamos quando temos vinte anos, e possuímos todo o tempo do mundo...
Chegamos no portão e logo nos viram, estavam no quintal; Milton, o comandante da companhia, o diretor, o sargento; todos conversando e esperando o jantar: - Não quisemos atrapalhar o descanso de vocês, mas venham sentem, como foi a viagem? Corajosas, hem? Deixarem o conforto do ar condicionado para alimentar os mosquitos da Ilha; parabéns! Falou o Comandante.
Milton perguntou como estávamos e se havíamos descansado; ele possuía uma casa no Abraão; pequena; ficava no final de uma rua, já quase dentro da mata; as janelas do quarto e da sala de jantar davam para um riacho atrás da casa; um som divino de água correndo, e um cheiro poderoso de natureza; fazia da casinha um lugar maravilhoso. Mas como ele não queria ficar sacolejando todo dia subindo e descendo a serra, dormia na Vila na casa da direção.
Logo o jantar foi servido, e então percebemos, o quanto estava, com fome; conversamos um pouco sobre o sistema, justiça, democracia; eu estava lendo “Arquipélago Gulag” de Soljenitsin; ele achou estranho me interessar por política e história; e o mais estranho; ler. Achava, que por mais que os jovens fossem ávidos por de conhecimento, na minha idade ele esperava que eu lesse algo diferente e a conversa continuou noite adentro e quando percebemos; Dois Rios dormia!
Valéria e eu, precisávamos dar um ‘tchibum’, entrar naquele marzão para lavar a alma; a Vila era paradisíaca e nunca acordamos tão cedo, fomos ver o sol nascer, ver o mar na luz primeira da manhã, perceber o lugar, absorver um pouco da sua energia, apresentar-nos à natureza e pedir-lhe permissão, para pisar nas suas areias, respirar seu ar, e maravilhar-nos com a sua beleza, e nos inspirar para fazer um trabalho legal!
Tinha trabalho que não acabava mais, precisaríamos checar cada situação jurídica, ver quem tinha pedido de benefício em andamento, quem estava com alvará prejudicado e porquê, quem dependia de laudos médico e social, quem tinha direito ao que aos olhos da nova lei.
Mil e duzentos internos; fichas que não acabavam mais; computador era artigo de luxo; ali não tinha; tudo era papel. A jurídica era a primeira porta do lado direito de quem entrava na unidade; possuía janelas que dava para o pátio da frente; não era grande; tinha mesas e cadeiras; arquivos antigos e uma máquina de escrever; seria pedreira! Ali trabalhavam dois internos; um muito magro de barba, com cara de rato e olhos espertos, falante e inteligente é quem fazias alguns pedidos de benefícios para os companheiros, na ausência dos advogados do sistema, mas tinha um quê de escorregadio.
O outro era moreno e forte, alto e com cara de mau, mas era uma criatura educada, quase tímida; gostavam de trabalhar ali e entendiam de execução penal; seriam de grande ajuda para botar aquilo para funcionar.
Fomos para passar uma semana; ouvimos todos os internos que chegaram até a jurídica e chamamos outros, para esclarecimento necessários; nome, rg, filiação, se tinham ou não advogados particulares, e duas semanas e meia, depois chegamos ao continente com todo o levantamento feito e uma porrada de coisa para dar andamento.

Namastê!

sábado, 5 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Foto Nylongbow)
Oi Companheiros!
Mais um dia em que somos agraciados com a possibilidade de estarmos vivos, e de podermos perceber a beleza e a simplicidade das pequenas coisas, pois é aí que reside os mistérios do universo!
Um bom dia para ouvir Billie Holiday!
Boa Leitura!



O dia amanheceu chuvoso; gosto dos dias gris; são menos abafados, respiro e penso melhor; são dias acolhedores, aconchegantes, produtivos. Gosto das manhãs; são calmas, trazem ainda um pouco a tranqüilidade da noite, poucos carros, o vai e vem crescendo lentamente. Ouço os primeiros movimentos dos vizinhos, sinto cheiro de café, um bem-te-vi canta, é inspirador ouvi-lo. Eu continuo na minha gaiola tentando achar um jeito de sair desse labirinto, de voltar a viver com esperança, de causar menos danos aos que amo, de criar formas de continuar permitindo que os meus filhos não sejam triturados pelas escolhas que não foram suas.
Sinto-me calma, apesar da lâmina sob as nossas cabeças, apesar da sensação persecutória que às vezes me invade e me prostra, já não acordo com dores no corpo, escrever faz me sentir satisfeita, e ver as idéias que estavam soltas transformarem-se pouco a pouco, em algo concreto, animam meu espírito. Fico pensando como encaixar tudo que sinto, na tela à minha frente, como contar essa história de forma que desperte interesse, como me encontrar e me permitir não ter medo de ter ousado amar. Seria fácil se eu tivesse desistido, se tivesse virado às costas, se tivesse lhe apontado o dedo publicamente, descolar-me do problema abandonando-o; daria uma lição de moral pública e seguiria meu rumo; mas é impossível, SOMOS UMA FAMÍLIA; e isso não é passível de mudança; nos amamos; todos nós! Não me arrependo das escolhas que fiz, foram ela que me levaram à família que tenho e só isso já vale toda caminhada.



A UFRJ corria em paralelo, mas com menos interesse do que antigamente, à vida real, e direito praticado diariamente, estava mais interessantes do que as teorias da academia. Não fiz política estudantil; quando entrei na faculdade estava saindo, das minhas lágrimas e não me interessei, admito; depois os direitos humanos; virou minha política. Vivia tentando conciliar a faculdade e o volume de trabalho que tinha, fazíamos fórum todos os dias; éramos uma dupla, eu e Valéria dividíamos o trabalho e acompanhávamos vários processos e mesmo não trabalhando mais nas unidades continuávamos a dar andamento; agora através do gabinete. O ali era monótono, nos cartórios não diminuiu, o volume do nosso trabalho, alias agregou.
Naquela época eu ainda estava sozinha, tinha tido um rápido envolvimento com um colega de faculdade; era um dentista e fazia direito à noite, estatura mediana; moreno, andava de branco por causa do trabalho, era vaidoso e trepava mal; não deu certo. Ele era mimado; um tanto narcisista, e ficou sem entender nada quando levou um fora. Nunca fui uma mulher quantitativa, mas qualitativa; boas trepadas, poucos parceiros.
Quando chegamos da viagem, conversamos e concluímos, que o tempo de gabinete tinha acabado, sabíamos que era uma posição de destaque estagiar ali, provavelmente um caminho para fazer carreira no próprio sistema; as pessoas eram boas, mas o lugar, monótono, sem vida; a Ilha nos oferecia trabalho pesado, adrenalina, mas em compensação; o mar, o verde, as flores; um mundo novo; poderíamos passar uma semana lá e ficar quinze dias no continente dando andamento aos processos; teríamos tempo de fazer um levantamento completo da situação jurídica dos preso, e fazer um diagnóstico de quem aos olhos da nova lei, tinha ou não direitos!
Nesse mesmo dia conversamos com Dr. Avelino, agradecemos a confiança e o respeito oferecidos por ele, mas queríamos realmente trabalhar, ver gente, exercitar um direito pró-ativo, interferir positivamente; explicamos que com a abertura do muro, os problemas que, de alguma forma pudessem surgir seriam minimizados com um levantamento apurado da situação e seria abertas vagas se em conjunto com a Vara de Execução Penal pudéssemos agilizar a situação; ele a princípio ele achou que estávamos abrindo mão de um trabalho bom, por um trabalho difícil e em um lugar pesado, uma cadeia difícil, mas nos deu carta branca para trabalhar, era também necessário colocar a situação da jurídica em dia; e só mesmo duas malucas como nós, seguiria o Milton para trabalhar de graça lá na Ilha Grande mas continuamos lotadas no gabinete, cedidas à unidade, Cândido Mendes.
Milton, que tinha sido designado para assumir a jurídica; gostou da idéia, foi nosso primeiro assistente, estava acostumado conosco e conhecia o nosso ritmo de trabalho e com isso a jurídica foi reaberta; trabalho pra caralho! Mas estávamos de volta ao trabalho que gostávamos; falar com as pessoas entender os problemas e tentar solucioná-los; era além do jurídico; fazíamos um trabalho de diplomacia, junto à direção, e como ela tinha a confiança em nosso trabalho, essa interferência minimizava o confronto guarda/preso e também a violência, já que tínhamos acesso não só a direção da unidade, como a direção geral e podíamos denunciar excessos ou maus-tratos; eles; os guardas nos engoliam, mas não gostavam...

Namastê!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Jardim /Simone M)

04/04/08

Olá amigos!
Que as flores imaginárias encham os nossos sonhos de cores!
Boa Leitura!




Capítulo XIX

O Major era um diretor diferente, uma pessoa esclarecida, apesar de se esforçar para parecer sério, era legal, inteligente, mas angustiado, e sentia fortes dores de cabeça. Falava de forma calma, e em um tom médio, era discreto apesar de ter um porte elegante. Era diferente de outros oficiais que tinha eu conhecido antes, culto, gostava de ler e atento às movimentações do mundo, tinha uma visão mais ampla que as unidades prisionais.
Ele nos falou, das dificuldades de uma penitenciária tão afastada do continente e que com a Lei Execuções em vigor, a jurídica da casa era prioritária para desafogar a unidade e dar um pouco de alívio a panela de pressão que tinha se instaurado. Ele era um administrador, previa situações e parecia querer colocar aquele lugar em condições melhores. Parecia honrado, gostei dele.
Retornamos a unidade e o evento entrou pela noite, já era hora de jantar e nós fomos descançar, enquanto a festa seguia entre presos e familiares. No dia seguinte, com o ambiente um pouco mais calmo, as autoridades já haviam regressado para o continente e pudemos percorrer as dependências administrativas da unidade; jurídica, serviço social, segurança, gabinete da direção, etc, e também fomos conhecer a companhia da PM; o Comandante, um homem educado, perspicaz, tinha também humor, nos mostrou todas as dependências, depois voltamos ao presídio para conversar com os presos.
Quando chegamos fomos encaminhados ao anexo, lá esta havendo uma reunião com os presos e o Padre Bruno Trombeta, que era o representante da pastoral penal, eles estavam tentando resolver o problema do isolamento do grupo. Era um cubículo pequeno, com um beliche; lá muitos homens; quando chegamos alguns tiveram que sair para entrarmos, os presos nos relataram com mais detalhes o que estava acontecendo e queriam que levássemos um documento para o diretor geral; entre eles havia um que pareia um padre, era falante e sério, nos olhava com desconfiança, era calvo, usava sandálias de dedo, era nordestino, aparência não enganava. Ele conversou conosco sobre a necessidade de integração daquela população, da disposição de assumirem os riscos de retornarem ao coletivo de presos, da importância do documento; que a cadeia era pobre, distante do continente e superlotada e que precisavam de ajuda. Fiquei encantada com a capacidade de raciocínio e da consciência coletiva daquele homem e principalmente da sua simplicidade.
O domingo chegou e fizemos o caminho de volta; aquele maravilhoso caminho, cheio de curvas e flores, sentindo o cheiro do mato e com a certeza que viria trabalhar ali.
*
Não foi fácil fazer a opção pela liberdade; ela implicava em pobreza; o dinheiro do meu pai que antes era só uma mesada, passou a ser o meu sustento, era uma coisa meio louca; enquanto eu procurava me adaptar a nova vida; pagava para trabalhar. Como o estágio era voluntário, arcávamos com as despesas de transporte, lanche e pequenas despesas como, cigarros, café, água; quando estávamos fazendo trabalho de fórum; era uma vida complicada, mas quando se é jovem, isso passa batido e lá íamos nós; ela vinha do Lins, eu do Andaraí e nos encontrávamos na Leopoldina, de lá; Bangu; nessa época já não havia mais carona; e as despesas eram nossas; no outro dia Galpão da Quinta, São Cristóvão, e ói nós; era legal, mas caro; me alimentava nas unidades, para economizar, mas por outro lado paguei com minha dedicação ao trabalho toda essa economia. Por isso no princípio, quando fomos chamadas para o gabinete, pensei que as coisas ficariam mais fáceis; um só lugar, um custo definido de passagens; a alimentação eu veria depois.
A jurídica era lugar de quem gostava de papel; ocupava nessa época os dois últimos andares de um prédio da rua Senador Dantas; tínhamos mudado da Alcindo Guanabara, onde ocupávamos um espaço no anexo da Câmara, o lugar não acomodava todos, era tudo meio amontoado, então o DESIPE - Departamento do Sistema Penitenciário, se transferiu e ocupou todo o prédio, onde também funcionava a Secretaria de Justiça.
No décimo primeiro, ficavam as salas dos assistentes jurídicos, os banheiros, e uma pequena cozinha. Eram eles quem liberava pelo DESIPE, os alvarás de soltura. Analisavam os prontuários; dossêis administrativos, onde constava toda a vida dos presos e suas movimentações; relatórios médicos, sociais, psicológicos, psiquiátricos, além de apresentações aos juízes e transferências; tudo documentado; e após o parecer, eram encaminhados à unidade para ciência do interno. No décimo segundo funcionava o coração da jurídica, muitos arquivos, caixas, computadores lentíssimos e que só poucos podiam usar; mesas, cadeiras e papel, papel, papel.
Na jurídica mandava Seu Santos, um guarda antigo, ‘fera’ em execução penal, era profissional de primeira linha, não interessava o ”nome” do preso, ou o “que” ele fez; era técnico: - Simone, não interessa saber quem é o preso; não somos juízes, precisamos saber se ele pode ou não sair, se tiver situação jurídica definida tá na rua, se ainda tiver processo pendente; não sai, e ponto.
Foi meu professor; com ele aprendi a ver o preso com olhos profissionais, sem paixões, mas com justiça. Trabalhava muito, se debruçava sobre aqueles prontuários enormes e podia localizar documentos com facilidade, detectava erros de cálculo e oficiava ao juiz, e não gostava de trabalho acumulado: - Se o assistente liberou, o preso tem que sair!
Ele não era corrupto aliás, aqueles tempos eram menos gananciosos, a corrupção não era tão ‘escrachada’, e poucos participavam. Era paciente; cabelos brancos e calvos; tranqüilo; sabia tudo, e até os assistentes jurídicos dependiam dele para destrinchar as situações mais complicadas; quem trabalhou com ele; aprendeu muito!
A vida ali era monótona, apesar da movimentação constante; já que respondia pelo grosso da parte burocrática; era um lugar de pessoas triste; alguns estavam para se aposentar e os mais novos; apáticos, com a rotina tediosa; era como se não houvesse mais o que desejar; havia casos de alcoolismo; era um trabalho que não oferecia perspectivas, não havia um plano de carreira, não havia estímulo da parte do Estado, não queriam trabalhar nos presídios e acabavam submersos nas montanhas de ofícios. Era um ‘outro’ DESIPE diferente do das unidades; na cadeia o bicho pegava.
Uma das coisas que logo percebi quando cheguei no sistema, era que havia dois DESIPES – Departamento do Sistema Penitenciário; visivelmente distintos; o da tranca e o dos gabinetes; cada um com a sua forma de lidar com o preso, mas interagiam desordenadamente; quem era da área técnica e trabalhava fora das unidades, não tinha a mesma visão de quem estava nas prisões; “trabalhar na tranca”; era tarefa muito estressante; pressão pura; um trabalho que tinha a segurança como linha central; o que desenvolvia no funcionário uma forma dura e bruta em lidar com o preso e uma visão fatalista sobre ele; claro que não era todos, mas quem ficava muitos anos nesse trabalho; acabava embrutecido. Já o corpo técnico, a parte burocrática, tinha uma visão formal, menos emocional, e como não sofriam as pressões do dia a dia da unidade, podia ver o preso de um patamar menos rancoroso.


Namastê!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Demoiselles D’avignon)

03/04/08
Que o dia seja tranquilo, produtivo e harmonioso, que faça brotar em nós energias transformadoras!
Boa Leitura!

Capítulo XVIII






Mulheres que esperam!
Quem somos nós? Somos seres invisíveis, destituídos de certezas e buscando equilíbrio a cada parte da etapa cumprida, na tentativa de não submergirmos no caos que é viver sem futuro
Como caminhar nesse terreno pantanoso?
Como manter a auto-estima e a sanidade, como retornar a vida livre resguardando o mínimo de respeito, quando estamos acuados na nossa invisibilidade?
São respostas que buscamos todo dia, para nos mantermos vivos, para chegarmos ao porto seguro que é a reorganização da família pós-martírio.
Não é uma escolha fácil caminhar ao lado dos que foram punidos, não é uma tarefa lúdica ser esposa ou parente de um homem preso ou foragido.
Caminhar por escolha própria, por veredas que não são suas e aceitar as futuras intempéries do tempo, resguardando o amor; é uma tarefa complexa; amar um cidadão preso ou foragido é um exercício de doação, é ultrapassar a si próprio e eleger o outro como prioridade; é vivenciar a incondicionalidade!
Estar ao lado de alguém apartado do convívio social é abrir mão de sonhos possíveis e se permitir aprender com as escolhas que fizemos; mesmo estranha aos olhos alheios; e reescrever a história da nossa vida.
Desejamos que nosso ‘príncipe’ venha acondicionado dentro dos nossos sonhos perfeitos; para só abrir o pacote e ser feliz; mas a sabedoria misteriosa da vida nos leva para o improvável, o desconhecido, o vertiginoso; e faz com que a força que dizemos sentir seja testada.
Quem somos nós? Somos mulheres que vivem o dia de hoje como se fosse o último, como se devêssemos absorver tudo num só momento, por não saberem como será a continuação do que está sendo vivenciado; muitas, arrimos de família, sustentáculos de esperanças desmembradas, vivem uma vida dual assumindo diferentes papeis, para conseguirem a aceitação social; são alçadas subitamente á condição de mantenedoras, na maioria das vezes escondem o seu vínculo com a prisão com receio do preconceito; comumente perdem seus empregos quando seus vínculos são descobertos; é como se possuíssem características físicas que as imputasse o descrédito como pena acessória, à pena que já pagam compulsoriamente com os seus maridos; é como se possuísse uma lepra moral.
A ida à prisão é sempre precedida de ansiedade, e na saída, sempre um sentimento de pesar e impotência, nos acompanha; É uma missão difícil construir relações estáveis ou equilibradas em uma vida dividida, onde os papéis são trocados conforme o cenário da ópera; construir bases emocionais sólidas nessas condições, é um prêmio reservado a poucos.
Quando não moram nos núcleos de pobreza do estado, vivem no penoso muito as negação; negam o quem são para serem aceitas; quando saem para visitar o preso, acondicionam as sacolas de ‘sucatas’ em bolsas de viagem para que os vizinhos não ficarem curiosos; muitas sentem vergonha da história que são participantes involuntárias. Outras vivem em morro e favelas, convivendo diariamente com a violência no batente da porta; acuadas; observando aos desdobramentos de uma guerra que não é sua; mas, ao mesmo tempo a comunidade é ‘o’ local ‘seguro’, em que podem ser elas mesmas, onde não precisam fingir ou negar quem são; terreno conhecido onde muitas possuem a mesma história de espera. Lá são pessoas comuns, são casadas com alguém, os filhos um tem pai, esse pai tem nome e seus vizinhos sabem para onde vão aos finais de semana. O caos da favela as torna livres! Muitas mulheres estudam, mas seus professores e colegas não as conhecem; delas; só vêem a face construída sobre a vergonha imposta; maquiagem usada para aceitação social. Aos vizinhos, são viúvas ou separadas; quando dizem que são casadas; os maridos trabalham em outro estado, estão hospitalizados ou morreram. Os filhos aprendem desde cedo que o pai está no hospital e quando já entendem o peso da masmorra, são orientados na maioria das vezes a também se auto-negarem; dizem aos professores, vizinhos e colegas que o pai está viajando ou está separado da mãe e sentem com isso desde pequenos, que não fazem parte da história social; que estão de fora.
Crescer profissionalmente em meio a essa situação, requer uma grande força de vontade e o abate de diversos leões diários, para continuar percebendo-se possível, a despeito do que pensam de nós, pois no imaginário coletivo, a opção pelo o que difere da ‘normalidade’ é sempre uma opção de caráter; mas é falacioso pensar assim; existem vários porquês, e o amor é um deles.
A vida das que acompanham seus maridos pelo mundo afora, não tem amigos, fala pouco, locomove-se pouco; no mínimo aquelas que querem que seus companheiros vivam e possam envelhecer juntos
Percebo que a vida me deu possibilidade de escolha; e ofereceu-me, ferramentas poderosas; que me permitiram, chegar até aqui, semi-inteira após 24 anos buscando a liberdade. Sou um ser feliz, deitei com os homens que quis, casei com o que amei, sou amada, nunca abortei; não por formação religiosa, mas por que tive sorte, não precisei ser confrontada com essa decisão; o destino foi generoso e me deu fardos possíveis de suportar.
Só falta a liberdade!

Namastê!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

FORAGIDOS



02/04/08
A beleza e a tranqüilidade da Vila Dois Rios, contrasta com as lembranças das dores ali sofridas, dos abusos, do abandono, da solidão...



Capítulo XVII

Muitos presos vieram conversar conosco durante o Festival; moças diferentes no pedaço; carne nova; soubemos que havia muitos problemas, jurídicos, de saúde e ficamos de ouvi-los antes de irmos embora; naquele momento éramos o contato mais próximo, com a direção geral, estávamos ali para seremos juradas, mas não custaria nada ouvir as demandas deles...
Eu e Valéria ficamos pouco no auditório, já tínhamos ouvido muito sobre o “Caldeirão do Diabo”; estávamos ali, queríamos conhecê-lo e fomos junto com alguns presos ver o lugar.
A cadeia era uma construção de três andares, velha e suja; já tinha visto dias melhores, agora amargava o esquecimento, estava como sempre lotada; possuía quase o dobro de presos do que a sua capacidade inicial de mil, e com os anos de degradação essas vagas viram umas 600, mas a unidade naquele momento abrigava 1.200 presos. Os corredores cumpridos, altos e escuros, dava um ar tenebroso ao lugar; era uma construção com uma arquitetura sólida, bem anos quarenta, escadas curvas e amplas ligavam os patamares; no térreo; no lado esquerdo tinha, a inspetoria, a cooperativa dos internos; uma parte da galeria era composta de cubículos individuais; mas onde moravam uns seis; e no final do corredor que foi divido ao meio por uma parede; ficavam doze “surdas”; celas de castigo, que só eram acessadas pelo lado externo do prédio.
Do lado direito, tinha a sala do CRI – Clube Recreativo dos Internos; vazia só com uma tv, mais à frente, a capela e depois o “rancho”, que era como chamavam o refeitório.
O primeiro andar, do lado direito era composto por cubículos individuais e no esquerdo os coletivos, já no segundo (mas que os internos chamavam de terceiro), as disposições se invertiam e no final do corredor da direita haviam celas destruídas onde ficava o isolamento; o castigo.
Depois fomos levadas a outro prédio que ficava atrás do primeiro, mas que não era visto da frente, estavam separados por um muro onde havia uma porta de ferro que dava acesso à outra edificação, só que mais nova; uma caixa de três andares, a qual chamavam de ‘anexo’. O andar térreo estava vazio, desativado e só os dois outros andares eram usados, oitenta presos ocupavam a unidade especial, em celas duplas, que eram usadas por três; ali também havia excesso de gente.
Ali ficavam isolados os presos que o sistema classificava de “periculosos”; eram separados do convívio com os outros pelo portão que só estava aberto por causa do festival; a situação no sistema estava confusa por causa desse isolamento e uma comissão de presos estava pleiteando, com o apoio da pastoral penal, a abertura definitiva do portão.
Na volta para o auditório fomos tomando pé da situação difícil em que os internos estavam; a jurídica já não funcionava há uns seis meses; o antigo assistente não voltou mais e não havia estagiário que quisesse pagar para trabalhar tão longe; o governo federal tinha acabado de sancionar a Lei de Execuções Penais, mas eles ainda não sabiam que direitos tinham; tudo estava muito confuso com o setor jurídico parado. A penitenciária estava cheia, muita criança e mulheres que se espalhavam pelas galerias e corredores; sentadas pelo chão como num piquenique, nos bancos; parecia que tinha gente em todos os espaços.
Quando chegamos ao auditório, um grupo de pagode se apresentava, e em seguida o evento ia começar; fomos conduzidas por um preso que fazia parte da organização para o nosso lugar no júri; o mestre de cerimônia abriu o concurso de música e poesia, agradecendo a presença de todos e o festival começou!
Do ‘camarote’, as autoridades observavam a festa; ainda não tínhamos sido apresentadas à direção da penitenciária, mas eles já tinham sido informados da nossa chegada e no intervalo fomos convidadas para o almoço na casa do diretor.
Caminhamos de volta, precisávamos do banho que ainda não tínhamos tomado e uma refeição caseira cairia bem; nas ruas de chão de terra e areia; folhas caídas e flores nos jardins e nas árvores. Como um lugar tão lindo podia abrigar o degredo?
A casa do diretor, tinha dois andares; linda, bucólica, ampla, arejada; tinha um quintal lateral de muro baixo, ficava de esquina, em sua volta árvores, e tinha um mar lindo à sua frente; ficamos encantadas, um lugar maravilhoso para estar!
De quase todos os cômodos da casa se via o mar, na parte de baixo; salas de visita e jantar e no segundo pavimento quartos; além de mim e da Valéria, havia mais duas estagiária que também foram convidadas, e todas nós fomos alojadas lá.
O almoço foi tranqüilo e saboroso; na mesa, Milton, Amiche, Valéria, eu, as duas estagiárias, o comandante da companhia e o diretor; o cozinheiro era um interno e trabalhava maravilhosamente bem; após a refeição Milton subiu dizendo ir tirar um cochilo, as estagiárias o seguiram, o Sargento Amiche voltou para a unidade, o restante ainda continuou na mesa; conversando.
Às vezes a vida nos prepara armadilhas para testar a nossa resistência, a nossa consciência...

Namastê!

terça-feira, 1 de abril de 2008

FORAGIDOS



01/04/08
Bom dia amigos; hoje acordei com Chorão cantando... além do bem-te-vi, é claro!


”Buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco com o coração partido/ Tomo cuidado para que os desequilibrados não abalem minha fé pra eu enfrentar com otimismo essa loucura /Os homens podem falar mais os anjos podem voar/ Quem é de verdade sabe quem é de mentira. Não menospreze o dever que a consciência te impõe não deixe pra depois valorize a vida /Resgate suas forças e se sinta bem, rompendo a sombra da própria loucura. Cuide de quem corre do seu lado e de quem te quer bem Essa é a coisa mais pura”...
Charlie Brown Jr.
Boa Leitura!



Capítulo XVI

O dia amanheceu opaco, esmaecido; as coisas parecem mais lentas, as ações rápidas demandam um esforço maior; um dia preguiçoso! Eu sigo digitando ainda meio confusa com o monte de memórias que me tomam de assalto e buscando entender como montar o quebra cabeça da minha vida.
Vejo que tenho muitas boas lembranças que serviram de alicerce para os anos difíceis, minha alma tem um compromisso com a felicidade e apesar de tudo sempre tive sorte; agora percebo.
A liberdade é o sonho que persigo há anos; andar sem olhar para trás; sentar de costa pra rua, descer do táxi na porta de casa, conversar com tranqüilidade com quem não conheço; relaxar sem antes avaliar o ambiente; coisas que para muito são banais; sem importância; para mim elas sinalizam a possibilidade de sorrir, de distencioar, de desarmar o espírito.
Há vinte e quatro anos que não me sinto livre!
Não por estar casada; gosto de estar com ele; o amo; temos uma sintonia fina sub-reptícia, nos conhecemos; mas as pressões externas sempre nos desviaram da tranqüilidade “...que contradição, só a guerra faz, nosso amor em paz...” A prisão nunca nos permitiu amar por inteiro e; mesmo foragidos; ela se interpõe como uma sombra agourenta sobre nós.
É impossível amar alguém que está preso, e se sentir livre; não há como não vivenciar conjuntamente a dor da distância, a impotência ante á vida. A pena e extensiva a família e todos pagam conjuntamente; não tem como escapar; mesmo aqueles que não amam, mas por motivos próprios acompanham presos; sofrem; ou por si, ou pelo outro, ou pelos dois; depende do grau de sentimento de cada um.
Levei anos vivendo aos pedaços, em doses homeopáticas; tentando me equilibrar na corda bamba; administrando meus medos, e não criando expectativas sobre o futuro. Hoje olhos meus filhos e sinto que valeu; eles estão preparados para viver em qualquer parte do mundo, sabem quem são e quem somos e sentem orgulho do que temos tentado construir; não houve guetos, não os busquei; quando a sombra da opressão pairou, não permitimos que violasse o carinho que tínhamos; eles sempre foram sagrados, respostas divina ao amor que sentimos. Foram apresentados ao cinema, ao teatro, aos museus, ao circo, os shows; tudo que agregasse valor cultural; tudo que revertesse em herança benéfica daquele tempo de família partida.
Nunca poupei; quando solteira não precisava, quando casada não tinha o quê, mas tudo que tive serviu para formação deles; para que se percebessem além de mim ou do pai, para que se enxergassem possíveis, independentes, para que pudessem ocupar o seu lugar no mundo, sem medos.
Sempre foram meus companheiros, amigos; pais; além de filhos; enxugaram minhas lágrimas, me deram conselhos, protegeram minha sanidade, nunca houve assuntos ocultos falamos de tudo; educação, sexo, racismo, preconceito, opção sexual, homofobia, maconha, álcool, cocaína, boca de fumo, prisão, pedofilia, direitos, deveres, morte, violência, respeito, democracia; e todos outros assuntos que queiram discutir. Nada é proibido, tenho que estar aberta; ouvi-los são jovens; tento entender seus pontos de vista; tudo é passível de ser conversado; que dirá hoje com a Internet, que os leva a todos os lugares, assuntos, imagens, pessoas; se não houver um canal de amizade; já era, os perdemos para o mundo sem ter a chance de dizermos como foi conosco e que é normal se ter medo ao mesmo tempo se sentir invencível, ter namorados, usar camisinha, beijar muito; faz parte da adolescência da juventude, não posso esquecer que tive a idade deles e que teria adorado se minha mãe conversar-se comigo, talvez hoje seríamos grandes amigas. Os meus são parceiros de fé, que conquistei com amizade, respeito e muito papo! E quando nada disso não funcionava; aí só tinha uma saída; incorporar dona Angélica: - Cala a boca todo mundo, quem sabe sou eu e acabou fim de papo! Sempre fui respeitada.
Sei que voltarei a falar dos meus filhos mais lá na frente, não tenho uma lógica para escrever, nem método; as palavras vão saindo e tento capturá-las antes que fujam de mim. Não sei se é assim com tudo mundo. Comecei a escrever ha um ano, era divertido; primeira página, segunda; cheguei à décima; empaquei, travei, congelei, as idéias se rebelaram e pararam de sair da minha cabeça, era como se eu estivesse vazia, oca. Dizem que os escritores fazem obras primas, quando estão depressivos, tristonhos; não sou escritora e talvez nunca seja; tenho facilidade de escrever; às vezes, mas não regularmente; sou terrivelmente influenciada pelo meu exterior.
Experimente escrever numa casa de dois cômodos com cinco pessoas, televisão ligada, uns lendo, outros dormindo, um calor insidioso; desconcertante. De vez em quando alguém te chama para coisa nenhuma e lá se vai a construção da frase pra casa do cacete; novo esforço para retomar o ritmo, brigar com o teclado para que ele seja mais rápido e possa capturar um número maior de letras. Não é um exercício fácil; é necessário abstrai-se de tudo em volta, tentar ouvir as vozes que ainda baixinho ecoam em você; sem contar, o peso psicológico de estar foragidos, da falta de dinheiro, da saúde meio gangorra, da menopausa, da dor da coluna... Dando essa desculpa levei um ano para tentar de novo.


Namastê!