segunda-feira, 14 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Foto FFFFound - Salt and Pepper) 14/04/08

Oi!
Muita Luz para todos nós!



Não temos perspectivas a, curto prazo, então, só nos resta esperar, e nos fortalecer na esperança de que algo ainda vai acontecer, e nos tirar dessa espiral de coisas negativas. E eu fico a me perguntar até quando?
Sei que é difícil escrever o que sentimos, para mim é algo extremamente complicado, pois as emoções ou estão em estado de ebulição permanente ou de uma apática conformidade.
Fomos ao advogado estudar formas, de transforma essa “liberdade”, em liberdade legal. Enquanto isso; esperamos, como temos esperado, durante vinte e quatro anos, que possamos gozar dessa vida sem as amarras que nos prende.
Penso como tudo é tão relativo, um prefeito de Minas foi preso com um milhão em espécie proveniente da corrupção ativa; está solto junto com mais uma dezena de corruptos; enquanto tentamos conseguir viver de forma digna, depois dele já ter cumprido 39 (trinta e nove) anos de prisão, e ainda aos 65 anos ainda caminha tentando provar que é uma pessoa útil e digna de uma chance.
Chance para pobre? É ruim hem! O legal é roubar bastante, dar demonstração de poder através dos bens mostrados nas televisões, da vida abastada que cada um tem; isso corresponde a força que possuem, isso implica em poder e poder implica em votos e por aí vai...
Aqui é só uma história familiar, o que ultimamente não tem muito valor, mas mesmo assim ainda continuamos tentando, vamos ver no que dá; quem sabe o mesmo destino que me levou até ele naquela Ilha possa agora nos dar um crédito, por tantos anos de espera.


Logo os benefícios foram tendo resultado e os internos começaram ganhar a liberdade; foi uma boa leva deles para rua o que animou os mais arredios a se aproximarem da jurídica.
Na cadeia a palavra motivadora é LIBERDADE, tudo mais para o preso é um paliativo; só funciona o que trabalha nessa direção e tudo que esteja ligado à possibilidade do retorno ao convívio da rua. Quanto mais em uma unidade que estava se reformulando, a possibilidade de liberdade distencionava um pouco o ambiente; presídio sempre é um lugar imprevisível.
O nosso trabalho continuou durante o segundo semestre, o que nos deu possibilidade de nos aproximarmos mais dos internos e ganhar a sua confiança e com isso, confirmar os abusos e maus tratos que começamos a relatar; primeiro a administração local e depois a direção geral; a nossa convivência que no princípio era tranqüila com os guardas, ficou mais tensa.
Passamos a almoçar na cadeia, a comida dos presos, faziam um recortado; refaziam o que já estava feito para dar sabor a comida sem gosto.
Valéria cada dia mais se aproximava do seu admirador e os sentimentos pareciam sério, e começamos a conversar sobre o que estava acontecendo com ela. Não escondeu, estava realmente envolvida era sério, ia se afastar do DESIPE e voltar como visita dele; estava disposta a tentar viver aquela história.
Nessa época já nos queriam; tanto os guardas quanto a PM; nos ver pelas costas, a nossa intermediação do preso com diretamente com a administração não era apreciada pelos funcionários, se alguém apanhava e nós ficávamos sabendo a direção também ficava e alguém tinha que se explicar e isso foi minando as nossas relações, As freiras eram incansáveis, sempre cuidando daqueles homens, muitos sem famílias, doentes, fora à convivência com as injustiças, era bravas, trabalhavam bastante em uma unidade tão carente de tudo.
O Padre Bruno não morava na Vila, mas ia todo mês e passava uma semana resolvendo os problemas ligados a Pastoral, que funcionava na Catedral perto da Lapa e oferecia assistência jurídica e social aos presos e familiares e atendiam muitos internos e voltava com respostas jurídicas e encaminhamentos na área social. Eram distribuídos mantimentos para famílias mais pobres; roupas também, às vezes davam a passagem para a família poder visitar seu preso e faziam encaminhamento para certidão de nascimento, etc.
Tenho uma boa lembrança do trabalho da Pastoral; eram advogadas guerreiras e como nós, gostavam do que faziam; só com uma leve diferença; o nosso estágio era voluntário.
A Igreja Católica, apesar do Cardeal Dom Eugênio; que era capaz de comer aquela comida horrível do sistema e abençoá-la em dias de festa; fazia o seu trabalho movida pela força do Padre Bruno, que conseguia romper a indiferença do Cardeal, e inibir muita violência ou mesmo pressionar a apuração de outras tantas.
Os jovens pobres, pretos, presos, nunca tiveram o mesmo apoio, dos jovens presos políticos. A Igreja apesar de tudo fazia sua seleção!

Namastê!

domingo, 13 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Foto Santa Rosa Old School)

13/04/08
Oi Companheiros!
Enquanto as idéias não pintam, que tal ouvir, 30 Seconds to Mars?
Boa Música!




É, hoje acordei com a pressão alta, nada produzi e só agora sento para escrever algo, mas estou feliz por ainda estamos vivos, apesar do aquecimento global, da violência desvairada, da desumanidade, da fome, do degredo de povos, da soberba de muitos, da indiferença dos jovens, da covardia dos pais, da falta de amor, da compensação financeira para curar a dor de não dar amor ou de não tê-lo, da geração que se forma sob uma competição inumana, ante o olhar abismado da outra que se “achava” a salvação do mundo; e apesar de tudo, ainda teimamos; alguns; em acreditar que “cuidar” do que amamos é o caminho mais curto para felicidade.
Amanhã torço para que as lembranças estejam tranqüilas e colaborem com a minha vontade de contá-las.
Tenham uma semana produtiva e alegre!

Namastê!

sábado, 12 de abril de 2008

FORAGIDOS


Olá!
Novidades?
Não ouvi nenhuma que colocasse o mundo em um rumo melhor; só a Fé; esse sentimento de inexplicável certeza, nos move!
Boa Leitura!

A luz do computador ilumina o quarto, escrever com todos dormindo é mais produtivo, fico mais concentrada e não sou dispersada pelo movimento normal do dia. Enquanto dormem, o meu peito se aquece em sabê-los bem, minha alma fica tranqüila, meu espírito se alegra.
Não tenho sonhos complicados, me satisfaço com o aconchego desse povo que me cerca e me enche de amor. Penso como a vida tem sido estranha conosco, e que como nos coloca a prova a cada momento; muitos conseguiram a chance da liberdade legal; nós sempre tentamos, mas só conseguimos conviver foragidos, buscando esperando...
Nunca tivemos problemas externos, como amantes ou a indiferença, temos uma vida sexual saudável e gostamos de estar juntos, temos filhos legais, mas nunca o horizonte que vemos a nossa frente, se aproxima o bastante para que possamos alcançá-lo; essa liberdade que vemos de longe nunca foi nossa; mas sabemos que a nós pertence mais que a luta que nos está sendo oferecida há muitos anos, e que construímos a despeito do tempo e da distância, um sentimento forte que se completa e se alegra em saber simples, possível e recíproco.
Apesar das grades, formamos uma família há vinte e quatro anos; tempo maior do que muitos que tiverem a chance de vivenciarem a liberdade em família, e que nunca percebeu a importância desse amor.
No cômpito geral acho que estamos em vantagem, agregamos valor ao que sentíamos e as dificuldades nos fortaleceu e nos fez atravessar todos esses anos com amizade e respeito.
Acendo mais um cigarro; preciso parar, mas isso é uma outra história; enquanto a carne se sobrepõe à razão; dou mais uma tragada e lembro...



Bloco Comunicação, verão de 1976, me acabei no carnaval, saí todos dias, fiquei com bolhas enormes nos pés, minha mãe falou muuuuito: - No ano que vem não vai mais. Fiquei uma semana de molho sem poder andar direito.
Por morarmos perto do mar, o melhor passeio era sempre em direção a ele; tomar banho ou somente “lagartixar” na areia até torrar, na praia do Bogari, ou ir passear na direção dos Tamarindeiros; depois da Igreja de Nossa Senhora da Penha, surgia uma espécie de praça repleta de tamarindeiros, tinha épocas que estavam carregados e era a alegria da garotada; eram tantos da dava para levar para casa e fazer doce. O lugar da praia sempre estava cheio, e por ter árvores era escolhido por famílias e crianças para passar o dia ali; tipo picnic; cheiro de peixe frito, se misturava ao de tamarindo, continuávamos em frente passando pelo terminal de ônibus, até altura da Lélis Piedade; a principal, onde entravam os ônibus que vinham do terminal. Se entrássemos nela, a primeira transversal à esquerda era a minha rua, mas seguindo em frente, vinha o cais das barcas, que levavam passageiros para Paripe ou Piripiri, no largo da Ribeira a sorveteria era parada obrigatória, depois voltávamos a passear pela balaustrada; passávamos pela rua do Fogo e logo depois da curva vinha a praça onde reinava na sua frente o edifício REX, na curva era o antigo apartamento do meu avô; pai do meu pai, Juiz de Direito, morou ali até morrer velhinho, o Conselheiro Manoel Mattos. Era um prédio de três andares, logo depois vinha à casa de Tio Adhemar, continuando chegávamos até a escadaria do Hidroporto e continuávamos passando em frente ao colégio Amado Bahia, um antigo sobrado da família Amado Bahia, que virou colégio; mais um pouco o Clube de Regatas Santa Cruz aparecia; no segundo andar rolava uma “boatezinha” no final de semana.
Nessa altura atravessávamos a rua e Gracinha entrava em casa, nós entrávamos na primeira rua, onde Iran morava; Rita que era sua vizinha morava mais à frente e também entrava em casa, quando chegávamos no cruzamento da Rua do Fogo com a nossa, Isis tomava a sua direção e ia para casa; Olga, Olgahide e eu, continuávamos em frente, elas entravam primeiro, moravam mais perto do final da rua, eu seguia em frente chegando de novo quase na Lélis Piedade e entrava em casa.
Todos os dias esse era o roteiro, quando não havia nenhuma festinha ou ensaio da banda na casa das irmãs Olga; dávamos a volta na ponta da península, jogando conversa fora e olhando a vida dos outros. Tempos de puro “dolce far niente”, dos jogos de “baleado” na rua aos domingos. Fechávamos a rua e o campo era marcado no chão com giz; as equipes eram montadas, sorteávamos os lados e jogávamos a tarde toda. O jogo era de habilidade e resistência, o time conseguisse se esquivar das boladas em quem ela pegasse era “baleado” e tinha que sair do jogo e assim ia até que a última adversária fosse atingida com a bola, quem sobrava, vencia; várias meninas participavam, vinham até de ruas mais distantes jogar conosco; os meninos adoravam!
Nessa época não havia tempo ruim, e tudo era possível; éramos jovens!
Lembranças agradáveis de um tempo gostoso, como o cheiro da moqueca de peixe que minha mãe fazia numa panela de barro; pedaços generosos de peixe; com a cabeça, ela adorava; colocava sal, cebola, quentro, pimentão, rodelas de tomate, leite de côco e algumas pimentas de cheiro, no final regava tudo com azeite de dendê! Divinal! Para acompanhar, arroz branco, pirão com caldo do peixe, e uma farofa feita de cebola frita no dendê com bananas cortadas em rodelas.
Na nossa rua havia um vizinho que junto com a esposa fazia uma doce de banana maravilhoso, vinha gente de longe comprar, era famoso o doce. O cheiro das bananas misturado com o açúcar durante o preparo até se tornar doce, tomava conta da rua; era de dar água na boca tanto quanto o de acarajé da baiana da esquina ou o aroma do caldo de sururu que vinha do bar que ficava depois da loja de ferragens virando a esquina de casa.
O gosto da Paella que as nossas vizinhas; descendentes de espanhóis; faziam e eu sempre ia filar, maravilhosa!
Outra coisa que me lembro era a freqüência que íamos aos terreiros de candomblé para comer caruru, a maioria não era do candomblé, mas tínhamos amigas que eram, e quando tinha festa:- Ôpa, vai ter caruru? Távamos dentro!
Me lembro de ter comido muuuuito caruru, adolescente adora uma boca livre e nós não éramos diferentes, alguns garotos também iam. Às vezes era aniversário de alguém, mas sempre rolava um caruru e quando digo caruru era caruru completo, com vatapá, farofa de dendê, banana frita, frango a cabidela e muita pimenta.
Gostos e aromas maravilhosos da minha juventude; saborosas lembranças!

Namastê.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Foto Flickr)
11/04/08
Olá!
Outro dia e o mundo ainda resiste, no fundo sou uma pessoa esperançosa!
Ouço Sade Adu...
O amor sempre foi um guia na minha vida, não posso dizer que fui infeliz, a vida foi difícil, mas infeliz não. Claro que abri mão de muitas coisas, claro que essa escolha foi complexa, não a aceitei sem lutar para que a vida fosse normalizada, mas acho que minhas estratégias não têm dado o resultado esperado; a liberdade definitiva ainda não veio e tudo continua pela metade como antes, mas a família está inteira, ainda resistimos, ainda somos uma família. Isso me faz bem, sou libriana, Vênus me move e os relacionamentos são importantes.
Senti-los se movendo a minha volta, sorrindo, sabê-los meus companheiros de caminhada e nos amarmos, é tudo que meu coração precisava, minha alma se acalma em família, meu espírito os reconhece como minhas metades amadas, reencontradas nesse mundão de Deus.



O oficial era bonito, educado e elegante, falava bem e gostava de ouvir, e eu estava querendo falar; contei-lhe como sai de casa, como me afastei da família, as dificuldades de morar sozinha. Ele era um bom ouvinte, mas um tanto taciturno; tinha olhos verdes.
Tivemos um envolvimento passageiro, sinto carinho quando me lembro, era uma excelente pessoa; sempre achei que ele estava na profissão errada ou no mínimo vestindo a farda errada; parecia-se mais com um oficial do exército do que um oficial da PM, tinha sonhos que ultrapassavam esses limites, o exército poderá levá-lo além das fronteiras do Estado; mas isso era o que eu achava, não o que ele achava; estava acostumado ao trabalho, era aplicado e se daria bem na carreira.
Não ficamos juntos muito tempo, mas foi alguém importante na minha vida, me ensinou ao seu modo que devemos ser responsáveis pelas nossas escolhas, que não dá para passar uma borracha na vida, que não dá para zerar o cronômetro, e que temos compromisso acima de tudo com o que escolhemos. Devo a ele esse aprendizado; honrar as escolhas que fiz e que faço.
Nos separamos, mas continuamos trabalhando juntos e a vida seguiu na Vila Dois Rios com os problemas de costume, violência, superlotação; o caldeirão estava sempre tenso.
Do lado de fora da penitenciária, um grupo de internos moravam em casas; eram colonos livres, tinham a permissão de ocupar casas enquanto cumpriam suas penas, alguns moravam na entrada da Vila, mas eram poucos, outros moravam perto da garagem e o restante no “favelão”, rua lateral da unidade, onde começava com casas de tijolos; antigamente a Ilha possuiu uma olaria; e no final; casas de estuque se continuássemos em frente chegarámos a cachoeira de água fria e limpinha, um paraíso.
Na vila moravam uns cento e vinte “colonos livres”, e para chegarem a esse benefício administrativo de viver do lado de fora da unidade tinha alguns requisitos a serem preenchidos; comportamento excepcional, possuir mulher e filhos, trabalhar; a maioria possuia horta, alguns trabalhavam como motoristas dos caminhões, outros na pesca, alguns faziam trabalhos para a administração ou para Pastoral. Tinham que dar dois “confere” na porta da unidade, isto é apresentar-se todo os dias às seis horas da manhã, às seis da tarde e meia noite, e responder o confere da listagem do guarda que ia chamando o nome de um por um em ordem alfabética.
No caso do preso não aparecer era destacado um grupo de guarda para ira até a casa do interno ver o que tinha acontecido; se estava doente, dormindo ou se tinha fugido. Raros colonos fugiam, eram presos que estavam perto de receber benefício e a condição de “colono livre” era positiva em qualquer pedido de benefício ao Juiz.
O trabalho fazia esquecer me da paixão que não deu certo e com o coração vazio, mas frágil foi fácil perceber uma emoção boa que rondava, distante em minha volta.
Ele não se aproximava e quando o fazia era sério e sempre para encaminhar outro companheiro que precisava de ajuda, nunca pediu que víssemos seu processo apesar de não ter advogado, fiquei com o caso dele que não era nada fácil; uma ficha de término de pena toda em aberta, sem os esclarecimentos das varas e auditorias militares, foi um trabalhão colocar tudo em ordem, mas no final consegui esclarecer a sua situação jurídica, então o chamei. Ele chegou do mesmo jeito de sempre pisando macio, com olhar sério, mas tranqüilo, ele me olhava nos olhos enquanto eu explicava toda aquele emaranhado de processo e o que era possível ser feito dentro da nova Lei; ele não acreditava, sabia-se marcado pela sua postura de não aceitar as condições desumanas das cadeias e não acreditava ser beneficiado, eu perguntei se ele não confiava em mim: – Em você talvez, na justiça não.
Ali foi o início de fins de tarde de conversas; ele esperava o último interno ser atendido e perguntava se tudo estava bem se nós precisávamos de alguma coisa e eu sempre o convidava para sentar, sempre sobre as condições da unidade, da forma que o sistema podia ser, da necessidade dos presos estudarem, trabalharem, e uma justiça mais rápida. Era preciso que os processos andassem mais depressa para abrir novas vagas e desafogar as delegacias. Era um cara esclarecido, não era de sorrir, mas tinha força e consciência em sua fala; os olhos dele, pequenos e brilhantes confirmavam cada palavra. Mesmo todo enrrolado, em uma situação complicada, naquele fim de mundo e sem a mínima idéia de quando a liberdade chegaria, tinha uma dignidade no olhar, uma certeza na vida que me deixou abismada.
Voltei a me apaixonar de novo!

Namastê!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

FORAGIDOS


10/04/08
Bom Dia!
Paz, Amor e Serenidade!
Boa Leitura!

A casa está quieta, logo-logo Marina acorda para se arrumar para o trabalho, todos dormem, estou olhando para tela, ao fundo bem baixinho em outra janela da tela SADE canta; um cigarro entre os dedos, uma bala de hortelã na boca, no peito um sentimento de amor e de certeza de ter feito a escolha certa, apesar de toda luta.



Já havia um ano e meio que saíra de casa e nunca dei um telefonema, nem para minha mãe em Salvador, era como se não tivesse família, o cordão umbilical foi cortado, e eu segui meu rumo, mas sempre havia recados, na Faculdade por exemplo, sempre um professor amigo do meu tio perguntava como quem não quer nada como ia e sempre dizia que meus tios gostavam muito de mim e se preocupavam; continuava sendo monitorada; sempre foi assim; uma semi-liberdade, uma liberdade com coleira; larguei a faculdade.
Antes; logo que fui para casa da Valéria; me foi oferecido mudar para um apartamento pequeno na Almirante Gonçalves, onde Sérgio já havia morado, mas acabou voltando para casa; deu mais trabalho longe do que perto; então ‘caiu’, perdeu o direito de morar sozinho e teve que voltar pra casa.
Não queria para mim uma liberdade vigiada, uma liberdade “bancada”, não é liberdade; minha tia sabia quem ia à casa do Sergio, se dormiam lá, quando saía, que horas ele voltava e com quem; não queria esse tipo de controle em troca de morar “sozinha” na rua seguinte a de casa. Podia ter aceitado mas, o que eu queria era caminhar, construir uma história nova e isso me custou muito, mas valeu, me deu experiências, alegrias e uma família legal; então a troca foi satisfatória.
Trabalhar na Ilha era ao mesmo tempo mágico e estafante; era uma unidade pobre e os tempos eram violentos; de vez em quando um preso escalava, pulava o muro e corria para mata, em zigue zague para fugir dos tiros das metralhadoras das guaritas; trabalhar assim é “meio” estressante.
Nessa época um primo meu era ministro do governo Sarney e um outro era secretário de cultura do estado e eu passeando pelas cadeias da vida; não sabia como a família encarava isso porque, nunca mais voltei ou procurei, mas até aí eu era só uma moça rebelde que queria conhecer o mundo e que logo voltaria. Mas voltar nunca esteve nos meus planos; nunca voltei para nenhum lugar de onde saí, me tornei nômade; ora aqui ora ali, mas sempre sendo dona e responsável pelos meus atos.


O trabalho na Ilha ia bem, já sabíamos quem tínhamos que atender; outros já eram acompanhados pela jurídica da Pastoral Penal, ou por núcleos de assistência gratuita de algumas universidades e outros tinham advogados particulares; nós trabalhávamos para os que não tinham assistência nenhuma.
Foram meses interessantes, depois do trabalho, sempre tinha um bate papo na cozinha da casa do diretor, que dava para o gramado lateral, ou às vezes ou guardas armavam pescarias de madrugada e vinha muito peixe, ou havia festas nas suas casas com musica e bate-papo e entre isso tentativas de fuga, porrada dos guardas, brigas internas no coletivo um emaranhado de coisas aconteciam no mesmo dia.
Passávamos quinze dias na Ilha e quinze no continente colocando em dia a vida jurídica dos nossos internos, fazendo ofícios e os encaminhando, esclarecendo situações em varas criminais e em cartórios de delegacias, fazendo e dando entrada em pedidos de livramento condicional, progressão de regime, indulto, comutação, visita periódica ao lar(VPL) e pedidos de alvarás de soltura.
Nessa época, estagiária fazia de tudo na Ilha, o departamento social também não funcionava, e lá íamos nós atrás das famílias para registro de criança, levantamento de endereço para instrução de pedido de VPL, pois nem todas as famílias iam a visita ou melhor; poucos recebiam visitas então era preciso procurar os parentes para conseguir algum documento necessário, para instrução de algum pedido ou esclarecimento de outros.
Nessa época Valéria começou a se aproximar de um interno, e mais que se aproximar se apaixonou por ele e começou a pensar em que escolha fazer; ele ou o trabalho. Eu pelo meu lado apesar de ter sentido uma emoção prazerosa de reconhecimento, ainda não entendia aquilo como real, nessa época tive um envolvimento passageiro com um oficial da PM, algo que para mim era estranho, pois a farda sempre me sugeriu repressão, mas me apaixonei mesmo assim, mas nos encontramos em uma época que não era mais nossa, não era a nossa história que eu deveria estar contando e sim essa; estranho, acabei me apaixonando por dois homens completamente diferentes e de lados opostos então, o destino que ainda continuava sentado sobre as montanhas da Ilha observando me levou em direção da segunda emoção.

Namastê.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

FORAGIDOS

09/04/08
Oi!
Hoje algo está desligado em mim, as palavras estão travadas.
Fecho os olhos e vejo meu pai, um homem alto, magro, sorridente, um par de óculos no nariz, cigarro entre os dedos, ou o cachimbo no canto da boca.
Meu amigo, meu amor!
Hoje estou seca, nada sai, as palavras não se encaixam, vou e volto e nada acontece; sinto me invadida pelo vazio.
Palavras, palavras, palavras; hoje elas não respondem ao meu chamado.
Então transcrevo algo que escrevi há um tempo atrás.
Boa Leitura!

Reflexões para um Guerrilheiro Urbano

Viver companheiro, é uma grande e bela viagem, na qual aprendemos a cada dia um pouco mais sobre o mundo e nós mesmos.
Ninguém foge ao seu próprio destino e a felicidade começa dentro de nós quando nos permitimos sentir prazer em sermos o que somos a despeito da companhia ou da solidão.
Tenho um compromisso perpétuo com a felicidade, o amor conduz a minha vida; aprendi a me alegrar mesmo na infelicidade momentânea, na falta da pessoa amada, na busca árdua de realizações pessoais, através das noites cruéis, que nos permite ver o quanto estamos sós, da espera que às vezes parece milenar, mas o amor que me conduz e que me permite exercitar a esperança, me move a cada dia em direção daquilo que sou e me alegro em perceber que tudo começa e termina dentro do meu peito, com a opção íntima de ser feliz.
Somos seres “buscantes”, você, guerrilheiro urbano, sonhador contumaz, gladiador do novo milênio, ser irrequieto na busca constante de garantias de dignidade para a vida humana, por isso é um ser especial, costuma se dar aos “todos” mais do que a si mesmo e isso o faz grande.
Eu, ser rebelde, nômade de natureza, avessa a controle, sonhadora de sonhos possíveis e impossíveis, busco me tornar inteira.
Temos inoculado em nossas veias o vírus da Fé, da esperança, da transformação, do movimento constante, da alegria; mesmo que homeopática, dos sonhos; mesmo que picotados mas, o amor sempre nos sinaliza o caminho.
Você guerrilheiro urbano, que faz a revolução em seu peito e que a transforma em ação, alegre-se com essa missão ímpar de ser alguém transformador e a vida se encarregará de tornar o seu coração tranqüilo.
Enquanto eu, ‘Helena, vou continuando a tecer o fio e a desfazê-lo, enquanto espero o meu ‘Rei’ voltar da batalha.
A Vitória apesar de tudo sempre será nossa!



Amanhã quem sabe as palavras se animem e saiam pulando, feito crianças de dentro de mim.
Namastê!

terça-feira, 8 de abril de 2008

FORAGIDOS


Olá!
Mais uma manhã no planeta terra, mais um dia de esperança no que ainda há de bom, na percepção do homem da sua perenidade, da sua fragilidade, da sua humanidade.
Que o dia seja dourado como as folhas de outono e a vida, sempre um tapete colorido e macio, nem que seja nos nossos sonhos!
Boa Leitura!

Queria estar andando por entre folhas douradas do outono, estabelecendo contato com o belo, com o simples, o natural.
Reconheço que existem milhões de pessoas com problemas centenas de vezes maiores dos que os nossos, mas os nossos estão mais perto e os vemos com potentes lentes de aumento.
A vida tem uma forma às vezes irônica de nos ensinar a caminhar; eu que busquei a liberdade cedo, que troquei a segurança e o dinheiro por me sentir cerceada, tive que aprender que a liberdade não é só um estado físico; ela vai além; está no direito a ser pessoa, de ser cidadãos, de confraternizar com os que amamos e se sentir feliz em ouvir a chave da porta de casa girando quando o último dos filhos chega em casa, de se sentir amada. Estou aprendendo nesse tempo que os conceitos de liberdade são amplos e amar é um deles.
Me sinto feliz por amar, por vivenciar essa troca de sentimentos simples e definitivos, por ter encontrado um parceiro, um amigo, um companheiro leal, um pai amoroso, um ser humano; como eu; em construção, se permitindo a aprender com os próprios erros, forte, esperançoso e com uma inenarrável fé na vida.
O amor foi o presente mais acolhedor que a vida me deu, e com ele uma porção de tarefas e testes, para que aprendesse que amor não é só uma palavra; é um conjunto de ações, sentimentos, emoções, todas positivas, prenhes de prazer, de satisfação e de eternidade.
Construir uma vida com amor entre a cadeia e a fuga é um milagre, não entendo bem como ainda estamos aqui resistindo, vendo as ‘crianças’ crescerem, pois sempre serão nossas crianças, ‘pedaços adorados de nós’; juntos, caminhando para as bodas de prata com a mesma certeza do primeiro dia.


O conheci em 1984, no dia do festival, em uma reunião no ‘Anexo”, e enquanto aquele homem falava com o Padre sobre os problemas que estavam acontecendo na unidade, dele emanava uma força vital, quase palpável, um orgulho saudável de ser gente e querer tratado como tal. Era simples, falava olhando nos olhos, tinha olhos pequenos, mas um olhar gigante; que nos penetrava e nos avaliava; não sorria, se portava de forma fria, distante, mas atento ao que estávamos falando e mais atento ainda à como estávamos ouvindo o ele falava.
A reunião pelo que pude perceber estava sendo no seu cubículo (cela), era um lugar espartanamente limpo; sem nada nas paredes, catre arrumado, livros do lado, um par de óculos; calçava sandálias, era simples.
Era como se eu tivesse reencontrado alguém que eu conhecia há milênios; um parceiro antigo, um sentimento de conforto, de não estar mais só, um calor acolhedor; amigo.
No mesmo instante o meu coração sentiu ‘queira envelhecer com ele’; foi uma emoção rápida e me deixou confusa, era a primeira vez que eu via aquele homem e em uma situação das mais complicadas, mas sentia que conhecia aquele cara de algum lugar, era um reconhecimento, um dejavú.
Falava comigo me olhando nos olhos e eu já tinha falado com aqueles olhos; o corpo era diferente, a embalagem era outra, era estranha a minha memória emocional, mas os olhos, o cheiro, a forma de falar.
Caraça! Encontrei a minha cara metade no lugar mais filho da puta; o caldeirão do diabo.
Depois daquela conversa voltei para a casa da direção confusa; parecia um chamado, vir a um festival naquele lugar distante e perceber essa emoção em alguém tão cheio de problemas.
Sabia que queria trabalhar ali, o destino tinha marcado encontro comigo naquela ilha para me apresentar ao meu parceiro de viagem e estava sentado sob as montanhas observando se eu teria “culhão” de tomá-lo pela mão e seguir o nosso caminho. E o que fazer quando você reencontra a metade da tua alma andando por terrenos tão minados?
Não falei nada para Valéria, a princípio era só uma emoção e às vezes o nosso ‘dial’ não está bem sintonizado, mas uma coisa estava clara, ali era o lugar para trabalhar.
Voltando para o continente, já na barca, enquanto o Abraão se distanciava, havia em mim a certeza que minha vida ia mudar de alguma forma.

Namastê!