terça-feira, 18 de março de 2008

FORAGIDOS






(Hidroporto - Av. Mém de Sá - Porto dos Tainheiros)


18/03/09
Olá! Bom dia!
Sei que o tempo de vocês é escasso e não espero que leiam com a avidez que degustam uma grande obra, mas aguardo com paciência que possam compreender como somos e o quanto; queremos retornar a viver, poder ter uma vida normal e com dignidade. Muitos falam de direitos humanos, muitos se solidarizam, mas poucos conhecem como vive e o que sentem pessoas como nós.
Boa leitura!





Capítulo III

Leio velhas lembranças...“Ando ansiosa, irrequieta; é como um parto; às vezes acordo no meio da noite, e posso senti-lo, ando pelas ruas e capturo emoções parecidas com as do tempo de você por perto. Te respiro; percebo teu cheiro nos momentos mais diversos. Sem você tudo é mecânico, o coração não pulsa; apenas se debate. Noites Cruéis! Avassaladoramente solitárias; pesadas, longas, doídas, sem aproximação do seu corpo, que me protege, me aconchega, me aquieta. Noites cruéis de frio, de insônia profunda, de um triste vazio. Madrugadas estéreis de solidão intensa. (07/97).”
Escrevi centenas de cartas nesses últimos vinte anos anos; ridículas e curativas cartas de amor; pequenas explosões controladas de emoção para que a mente mantivesse a sanidade, durante os anos de espera. Separo papéis ao mesmo tempo em que tento transcrever o que sinto nessa caixinha que me olha. Ele vê tv; sei que está preocupado, no fundo se sente culpado pela minha constante prostração. Estou no meu estágio “ostra”, voltada para dentro, exorcizando toda a pena que estou sentindo de mim mesma. Mas mesmo com esse sentimento confuso que me conturba, sei que é um privilégio vivenciar o carinho e o desvelo que ele me oferece, é um privilégio ser amada, mesmo que o preço nem sempre seja aquele que desejamos pagar. Mas o amor tem que ter preço? Sei lá, acho que é o ritmo normal da vida que ela reflita as escolhas que fazemos. Desejei envelhecer com ele; esse foi o primeiro sentimento que tive quando o conheci e, apesar de achar difícil o que temos passado, ganhei o que desejei; um amor, um parceiro leal; uma família. E isso é um privilégio!
Olho para ele e sinto que a minha vida não está passando em vão; temos sonhos e preferimos sonhar a dois. É uma escolha ao mesmo tempo atávica e audaciosa nos tempos de egoísmo profundo.
‘... há previsão de chuvas em regiões isoladas; no centro-oeste...’ segue falando a jornalista em tom monocórdio, sem vida, sobre o surto bendito da natureza contra a audácia constante do minúsculo ser humano; ele me olha com olhos de menino e ri; enquanto digito um pouco de mim, enquanto transformo em palavras a maturidade de um sentimento raro, construído com a descoberta diária, do prazer de estarmos juntos, como companheiro de viagem. Uma viagem; diga-se de passagem, cheia de aventuras, provas de resistência, obstáculos, mas apesar dos percalços; aqui estamos.
Acendo mais um cigarro; já devia ter parado; tive tuberculose há quatro anos. A rua está calma, à noite começa a tomar corpo, os sons diminuem; de vez em quando um carro, um ônibus...


Quando cheguei ao Rio de Janeiro, tinha 19 anos, queria ser médica, estava encantada com a psiquiatria, nessa época estava apaixonada por Freud, queria aprender o que ia, na alma humana, as raízes das suas reações. Minha preparação foi para área de saúde; formei-me em técnica em patologia clínica, vim de Salvador para encara um vestibular de medicina, queria ser médica, ou melhor; achava que queria...
Tive uma infância tranqüila, pai, mãe, carinho, segurança, educação; nada me faltou. Morávamos na ponta de uma península; Ribeira, Península Itapagipana, cidade baixa; para os olhos de menina; o lugar mais lindo do mundo.
Lembro-me da Sorveteria da Ribeira, dos tamarindeiros, da igreja em frente à praia, do antigo aeroporto de hidroaviões, dos Alagados; do Farol da Boa Viagem, do Largo do Bomfim das festas de rua, da segunda–feira gorda; festa que se mudava com todas as suas barracas na madrugada do domingo; último dia da festa do Senhor do Bomfim, para Ribeira, e que ai levando atrás dos caminhões os foliões crônicos para continuarem a folia na segunda. Um dia inteiro de festa com trio elétrico na porta de casa.
Tive uma infância, alegre, praiana; com muito sorvete, banho de mar e com a casa sempre cheia nos finais de semana; meus pais gostavam de receber os parentes e amigos. Aos sábados, cozido, aos domingo, feijoada, e milhares de outras coisas, mania que os nordestinos têm de fazer uma enorme variedade de comida como se fosse possível comê-la toda num só dia. Uma anarquia alimentar!
Não me sentia confortável com tanta gente, mas tentava ser simpática; não fui uma garota problema e mesmo com o desconforto da timidez conseguia me divertir.
Aos dez sabia que ia me casar com meu primo irmão; como era de costume nas tradicionais famílias baianas. Cresci ouvindo que, “os primos são das primas”. Isso significava, tradição, segurança; era o normal; mas quando se tem, dez anos, casar é simplesmente uma palavra, e a vida seguiu normal até os 16, quando comecei a tomar consciência da mortalidade. O câncer passou a ser uma palavra presente a partir daí. Meu pai levou quase dois anos doente e o último ano foi muito duro, a doença se espalhou pelos ossos, metástase. Ele foi digno até o final, grande homem! Gostava de música popular, colecionava quinquilharias, concertava coisas quebradas, era pai dos mendigos do bairro, tinha uma alma boa e um coração digno. Minha mãe e eu não tínhamos muito em comum, mas o amor do meu pai compensava sua aspereza. Ele era um príncipe!
Mesmo pequena sempre fui diferente, me comportava de forma introspectiva. Achava que era de um planeta distante e que tinha sido abduzida; nunca me senti à vontade; tinha poucos amigos, e aprendi a me ocupar com coisas que não dependessem de parcerias. A vida introspectiva é muito intensa e solitária. Passei a ser uma leitora desde menina, Monteiro Lobato, Julio Verne, Irmãos Green, Mil e um noites, gostava também de história em quadrinho, e tudo mais que me caísse nas mãos; adorava palavras cruzadas. Desenvolvi uma forma de me abstrair do convívio com os demais e a leitura passou a ser um grande escudo, e depois, um grande prazer.
Quando se sabe o que falar, mas não se consegue, é melhor não tentar, preferível esperar, observar, antes de se embrenhar num terreno pantanoso, e ficar em pânico sem saber o que dizer; nesses casos, os arroubos de segurança; acabam em paralisia e mutismo, ante a platéia boquiaberta. Por isso sempre preferia diversões que não dependessem de grupos. Era capaz de passar semanas sem sair de casa, simplesmente lendo, continuo sendo assim. Nunca fui à garota mais bonita, mas era simpática, não era muito falante, mas sabia ouvir; nunca consegui falar da minha vida com facilidade, mas era o oráculo de plantão, sempre fui cerebral e prática; os namorados das minhas amigas, as beijavam, mas gostavam de conversava comigo, sempre fui boa ouvinte. Do lado de fora a vida seguia de forma normal, mas dentro de mim ela viajava na velocidade da luz.
Os sentimentos me moveram e me levaram na direção que eles quiseram, nem sempre na direção mais fácil, mas sempre na direção que a emoção pautou; hoje entendo que não é uma forma racional de viver, mais foi à forma mais leal de lidar comigo mesma.
A morte do meu pai foi um grande golpe; certeiro, inclemente, arrasador; ele era meu amigo, meu companheiro, um homem que me amava. Perdi meu chão, ganhei quase quarenta quilos, me senti furtada pela vida.
Era um homem especial; muito magro, alto, era alegre, hospitaleiro, solidário, um homem sempre pronto a ajudar, a ser útil. Andava unicamente de terno branco; possuía um preto e um cinza-azulado que alternava entre casamentos e enterros, o resto era tudo branco, em um do bolso exterior levava cigarros, uma carteira para fumar outra para dar a quem pedisse, e no outro, linha, chumbo e iscas; ele pescava todo santo dia sentado na amurada da praia da Ribeira, adorava andar no antigo aeroporto de hidroaviões, ver o mar, era um homem feliz, gostava de pessoas, estava sempre disposto a ouvi-las. Agnóstico convicto, acreditava na evolução da espécie, ficou maravilhado; com a viagem do homem a lua; me lembro dele sentado em frete à tv, acompanhando com atenção ao que ele chamava de maior acontecimento do século. Acreditava na ciência, Deus para ele era uma válvula de escape que as pessoas usavam para se centrarem, mas foi o homem mais bondoso que conheci; ele exercitava Deus todos os dias mesmo não sabendo, através do amor que ele tinha por qualquer ser humano que se aproximava dele, ele era um otimista, um confortador, mas também sabia ser implicante; lembro dele falando: - Que Diabo! E minha mãe: - Não gosto do nome do capeta na minha casa! E ele: - Que Diabo, será que não posso falar o que quero na minha casa? Ela: - Não! Ele: - Diabo, diabo, diabo! Aí era um tal de pode, não pode, até que ela ficava aborrecida, ele a beijava e a paz era selada, mas nunca conseguiu parar de dizer “que diabo!”; era um costume.
Minha mãe uma mulher, forte, árida e pequenina; media 1,57; nunca foi minha amiga; não tínhamos muito em comum e não éramos próximas, meu pai sempre foi nosso decodificador, um intermediador, que da sua maneira tentava nos aproximar, mas nunca tivemos objetivos comuns, ou melhor; talvez eu nunca tenha tentado conhecê-la; éramos tão geniosamente parecidas que me aproximar dela não era atrativo. Passamos à vida como conhecidas distantes. Gostaria de ter sido mais amada por ela e gostaria de tê-la amado mais. Na adolescência nos afastamos de vez, ela queria que eu fosse aquilo que ela não conseguiu ser; transferiu para mim suas aspirações pessoais e quando a resposta não foi à esperada, nos afastamos; sem contar o ciúme que sentia do amor do meu pai por mim. A sua forma seca nos deixou cada vez mais respeitosamente distantes.
Não lia muito, era prática, uma administradora competente, mas distante das divagações, não se perdia em sonhos, mas sempre a admirei, era quem comandava; matriarcado puro. Era geniosa, mas leal; foi uma heroína durante a doença dele. Acho que no fundo me pareço com ela.
“...Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
A morte do meu pai nos afastou ainda mais, não nos parecíamos, e sem ele a nossa comunicação ficou truncada, nada havia me que fizesse querer ficar em Salvador, e a possibilidade de estudar no Rio de Janeiro veio como uma dádiva divina. Meus tios paternos, pais “daquele” meu futuro marido desde os dez anos; que eram como de costume; primos irmãos; convidou-me para morar com eles no Rio e fazer faculdade. A princípio minha mãe ficou disposta a mudar, alugarmos um apartamento e tocarmos a vida, mas no último momento; desistiu então, vim sozinha.
Não foi uma despedida fácil; ela se sentiu traída, desprezada, duplamente abandonada; perdeu o marido e seis meses depois a filha vai estudar em outro Estado; sei que foi um duro golpe, mas ela teve o apoio dos irmãos e sobrinhos e sempre foi muito ligada a eles; não éramos próximas, não tínhamos sonhos comuns, e sem o meu pai; o nosso decodificador, o entendimento entre ambas passou a ser mais difícil, por isso não me senti tão desumana quando peguei minha bagagem e parti.
Praga de mãe pega!

Inté!

segunda-feira, 17 de março de 2008

FORAGIDOS

(Cais da Ribeira-Salvador/BA)

17/03/09
Olá amigos; mais um dia no planeta terra e nada de muito diferente sob o sol.
De novo só a liberdade do mega corruptor Law Kim Chong, e eu me pergunto:
- Será que algo no mundo tem algum sentido?
E enquanto a nossa liberdade não vem...



Capítulo II

Vejo-o; separa o que acha importante; é bom vê-lo sorrir!
Ele olha pra mim com carinho, e sorrir com olhos, como menino, um desvelo que me faz sentir amada, ter utilidade, uma real importância; aquela que possui a capacidade de mudar, de interferir, de criar novas formas e rumos, sempre tive um compromisso íntimo com a felicidade e principalmente com a felicidade do outro. E eu; estou feliz?
Por estar com ele sim, pela situação não; para mim tudo é dual!
Amor e Lealdade; tanto poderia ser um título de novela, como uma tese sociológica, uma análise de percurso, um diagnóstico de sentimentos. E quem se atreve a diagnosticar os próprios sentimentos; temos um total horror da vulnerabilidade, nos damos chances quando nos descrevemos, mesmo quando não percebemos, tentamos nos perdoar.
Escrever tem sido uma forma de ser leal comigo mesma.
Enquanto escrevo, ele separa blocos de anotações que se espalham pelo quarto, material arquivado há mais de uma década, sentimentos intensos de medo, raiva, revolta, amor, justiça, alegria, ternura, que querem se desprender das páginas grafadas a caneta e aventurar-se no mundo informático, para ficar com formato, corpo e ganhar vida; viajar por arquivos, sites e e-mails, até alcançar status de texto maduro; e já tem nome: “Diário da Caverna”.
As idéias dele estão soltas, será necessário reavivar a memória, capturar as lembranças que ora são coloridas de vida, feito confete, ora intensas e sombrias. Amá-lo é um exercício de autoconhecimento e aceitação do outro. Mas amar não é isso? Aventurar-se em conhecer um pouco mais a si mesmo e o outro a cada encontro ou desencontro?
Não é só; as idéias dele que estão soltas, aguardando cola, uma liga; as minhas também voam como pipas coloridas em céu de chumbo; pescando raios, buscando novas energias para transformar o que está solto em uma história humana.
À tarde já se recolheu; longe toca uma black music, na televisão, o mesmo vazio oferecido aos pobres, através dos canais de TV aberta. Lixo Puro! E compramos tudo que é oferecido por essa caixinha que, nos coloca num patamar de vaidade que nos torna inumanos.
Não que não goste de ver tv, ao contrário, ela é um aparelhinho maravilhoso, com uma capacidade inenarrável de multiplicar informações, conceitos, notícias, comportamentos, mas suas grades são vazias; programas de fofocas e comportamento à tarde, além de novelas antigas; à noite mais novelas e um noticiário catastrófico e morno, como se as mazelas faladas; já não importasse mais; além de filmes repetidos; só tv a cabo, sonho de consumo, para poder zapear por informações com conteúdo, fora isso, só a torturante e enfadonha programação das tvs abertas; experimentem ficar dois anos, trancados vendo essa programação. Ui!
Os papéis precisam ser ordenados mais uma vez, colocados cronologicamente, depois; desbastar o texto, torná-lo simples, limpo.
O calor incomoda e desconcentra, o clima está comprometido, louco; como o mundo globalizado, indiferente, onde as benesses de poucos, são pagas com os desastres naturais e a conta da tragédia, oferecida aos milhões de pobres; observadores inertes, espalhados por todo o mundo.
Ele dorme! E eu o amo! Não é perfeito, nem super-herói, tem manias que me incomodam, e me ama; como um menino; e esse amor me comove, me alimenta, me faz bem; ao mesmo tempo sua conseqüência me inibe, me magoa, me faz mal!
Às vezes, criamos expectativas em torno de coisas e pessoas e acabamos cobrando delas compromissos que fizemos sozinhos, sem percebermos.

Aos dez, me achava esquisita, aos quinze, era calada, aos vinte, seletiva, aos trinta, confusa; aos quarenta me descobri tímida.
Foi estranho reconhecer depois de tantos anos que essa sensação, que sempre me fez demandar o dobro de energia que as outras pessoas; chamava-se; timidez.
Tudo que vivi foi pautado por contradições; o querer e o não querer sempre si confundiram no decorrer do meu tempo; as escolhas para mim sempre foram difíceis; uma característica da infância. Aquilo que eu não reconhecia como vergonha, acanhamento, me fez ser dúbia nas escolhas. Por isso, desde cedo entendi que tinha de esforçar para interagir com o mundo, e que ele exigia respostas claras e rápidas. A vida do tímido é um inferno astral contínuo, um pudor intenso na interação com o “outro”; não por desprezo, tédio, ou outro sentimento negativo, mas por pura falta de habilidade de interagir com as pessoas sem se desnudar completamente, já que a timidez, ou nos deixa vulneráveis no sentido de agradar para não ser diferente, ou distante, por não saber como lidar com o novo; que sempre chega revestido de um certo desespero, pela ausência de certezas; a segurança do que sabemos nos deixa confortável e isso nos faz cair em muitas armadilhas.
O tímido é contraditório, e acaba não sabendo como se colocar em situações que demandem decisões e escolhas; ele pensa muito; às vezes usa a auto-afirmação como caminho de superar a timidez; outras vezes se recolhe, causando efeito contrário; passando às vezes, por arrogante, autoritário ou indiferente.
Em mim, maior do que a timidez é a bipolaridade, é a oscilação interna, antiga companheira, que torna a minha vida numa eterna gangorra de dúvidas e certezas. Por outro lado, a vida cheia de grandes certezas traz o tédio da previsibilidade constante. E assim sou eu; horas de certezas intensas, horas de dúvidas inabaláveis.
Sei que todos temos uma missão no mundo, às vezes oculta através de caminhos labirínticos; às vezes tão clara que; duvidamos da sua importância; mas é o seu cumprimento, ou não; que sinalizará os rumos que as nossas escolhas irão nos levar; e para mulheres como eu, escolha; é uma palavra complexa.
Conheci-o quando buscava compreender a mim mesma, foi como um sopro de vida para um coração sem rumo, um ser apto a amar que estava no lugar mais improvável para encontrar esse sentimento, casei-me com ele buscando decifrá-lo. Ele dorme! E eu tento perdoar-nos, por não sermos “super”, por não acertarmos sempre, por sermos humanos!
Não somos iguais, temos pontos de vista diferentes, mas sentimos a vida de forma parecida e amamos com lealdade e respeito. E quem é esse homem?
O que o faz resistir orgulhosamente após trinta e nove anos de prisão?
De onde tira a energia para reafirmar-se a cada dia?
De onde vem essa força, que teima em mantê-lo vivo?
Ele dorme, e me orgulho de dividir a vida com esse homem simples, que a despeito de suas ações e as conseqüências que elas tiveram; reviu-se, repensou-se e escolheu uma nova forma de viver.
Ele dorme e eu sei que tenho um amigo, que eu tenho um amor.


Tchau! Amanhã tem mais.

domingo, 16 de março de 2008

FORAGIDOS

(Praia de Bogari - Salvador/BA)

16/03/2008.

Terra, 16/03/08. Marina minha vida, EU TE AMO, você é meu norte, porto seguro, amiga, mãe, irmã, companheira, filha amada; me acalma com sua tranqüilidade, me equilibra com sua sensatez. Esse relato virtual que começo a fazer, é pra você meu amor; é para você mostrar aos meus netos, é para eu dizer o quanto você é importante pra mim, e quanto a sua amizade foi balizadora da minha lucidez.
EU TE AMO MINHA FILHA, MINHA AMIGA, MEU AMOR!!
FELIZ ANIVERSÁRIO!




Toc. Toc.
Quero entrar; quero participar desse espetáculo fantástico que é a vida!
Quero voltar a ter endereço, quero andar na rua sem medo, quero viver em família, sem a pressão insana que é viver foragidos. Preciso rever os amigos, e fazer novos também, ir ao cinema; respirar sem essa sensação opressiva que sinto no peito. Hoje, minha filha faz vinte e dois anos, e o presente que posso oferece é sair da toca, me arriscar, dar a cara à tapa, lutar. Sei que a decisão de começar a escrever, nos colocará no olho do furacão; estamos foragidos, ou melhor; o pai dela está, mas somos uma família e as alegrias e as dores acabam sendo extensivas a todos.
Preciso tentar falar, dizer o que sinto, antes que as frustrações me corroam, preciso expurgar o medo e enfrentar os meus moinhos de vento e o mundo.
Nestes quase dois anos estive em guerra comigo mesma; me permitir sentir, raiva, rancor, ódio, culpa, medo, ira, tristeza, tédio, decepção, mas o amor, esse sentimento milagroso, me permitiu entender que fui agraciada com o que é mais precioso, uma família.
Talvez achem piegas; talvez riam, achem-me louca; mas não importa; preciso acreditar que algo novo e bom possa acontecer em nossas vidas, ouso acreditar que a ela nos levará no rumo certo.
Tenho filhos, sou responsável por eles, e serei eternamente, os pus no mundo, pari, não posso me furtar de honrá-los, de dar o exemplo, e não recuar; quero passear em família, interagir com o mundo, olhar as pessoas nos olhos e um dia quem sabe, todos juntos, possamos viver em liberdade legal.
Enquanto isso...



“FORAGIDOS”

- Sejam bem vindos, ao mundo daqueles que mesmo sendo; não são!

Sinto dor! Droga! Quando decido tomar a rédea do meu destino, e colocar o nariz para fora; o dente dói. Agora, preciso escrever um livro; aquele que estava preso, sufocado por desistências, medos, auto-sabotagens; tentarei a sorte e quem sabe, viro o jogo! Quarenta gotas de dipirona; amanhã; vou ao dentista!
Sou Simone; tenho 48 anos, três filhos e um marido foragido da justiça!!
Sou libriana, bipolar, tenho uma boca ferina e um gênio terrível.
Persigo a liberdade; adoro ler e estou com uma puta dor de dente!
Sou leal, fiel e louca. Detesto trabalho doméstico, falo palavrão e gosto de trepar!!
Todo louco gosta de trepar, deve ser os hormônios descompensados, enlouquecidos com a intensidade das emoções sentidas no seu mundo particular. Esse foi um fato importante para a permanência longeva de um casamento maluco; começou com a trepada do século; depois ficou complicado; era bom; então fudeu! Três filhos e 24 anos juntos!!
Sou um ser familiar; adoro minha família; me sinto responsável por ela; tudo bem que às vezes a odeio, mas é rápido e o amor acaba resolvendo as diferenças; sou amada e o amor me salva de mim mesma todos os dias!!
E aí? Interessa-lhe a história de uma moça de família baiana quintocentona, que casou com o “dito” fundador do Comando Vermelho e que faz bodas de prata ano que vem? A história de uma família improvável, fadada ao fracasso, mas que segue o seu rumo a despeito, da prisão, da distância e da fuga?
Quem desembolsará um centavo sequer para conhecer a vida de loucos que resolveram, ser feliz, a despeito das probabilidades negativas?
Há quase dois anos estamos foragidos e posso lhes dizer; não tem sido fácil! Voltar ao convívio social requer muito mais que a liberdade formal, é necessário uma reforma nos conceitos e na percepção de si mesmo. Levei quinze anos vivendo como “solteira”, dona da minha casa e do meu nariz, sendo senhora e rainha do pedaço; até que o meu território foi “invadido” de forma não prevista; a fuga!
Tinha me preparado para recebê-lo; e acompanhá-lo nas reapresentações, mas não avaliei a possibilidade dele fugir; tínhamos um acordo tácito; “segurar a onda quanto tempo fosse, mas foragidos nunca mais”; foi um baque! Não previ o desgaste do homem que amava; via-o “super”; e ele era, só “humano”; aos sessenta e quatro anos, com problemas neurológicos e hipertensivos não queria morrer longe dos filhos; sucumbiu ao aconchego familiar na sua primeira saída no regime semi-aberto; e eu entrei de cabeça no meu inferno astral...

Capítulo I

Adoro as palavras; sua plasticidade, sua sonoridade me encanta, para mim são como alimento, bálsamo, ungüento...
Assim comecei a primeira carta que fiz para meu adversário. Um adversário especial; aquele que se tem de criar formas de acessar sua atenção.
Quando será que percebemos que mudamos? Quando realmente nos tornamos adultos?
A primeira vez que tive a certeza que algo em mim estava se reconstruindo, foi quando, entendi estar olhando o mundo através do olhar do outro; dos que caminhavam a minha volta. Descobri-me adulta quando soube que, podia admirar o meu oponente, tratá-lo com respeito e colocar-me no lugar dele.
Sempre admirei as lutas limpas, justas, honradas e um bom adversário se deve tratar dessa forma. A diplomacia sinalizou o meu rito de passagem.
Aprendi observando o que era diferente de mim. o oposto sempre me ensinou mais, por que sempre me atraiu mais. Não um oposto específico mais o oposto enquanto oposto. O que se parece comigo me entedia, faz-me observar a mim mesma enquanto vejo, o oposto é o novo, o diferente é sempre uma descoberta.
Sempre fui uma tímida curiosa! E essa curiosidade desconfiada me levou a caminhos que, nunca poderia supor seguir; caminhos de luta, mas também de aprendizado, crescimento, de conhecimento.
Como todo mundo, sou um amálgama constante de emoções, vivências, desejos; e me reconheço diariamente através de formas multifacetadas, e só o tempo; companheiro constante; inexorável; poderá me dizer quem eu sou.
Agora volto a sentar em frente à tela do computador para tentar extrair de mim, memórias, lembranças, emoções, sentimentos, que me traduz.
Há em mim uma dualidade esquisita, um sentimento confuso que, ora me transporta milhas e milhas, ora me chumba, me prostra, me entedia; um sentimento extracomunitário; “sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum”, uma angústia centenária, é como se eu não fizesse parte realmente do espetáculo diário da vida, que a visse de fora, um sentimento de enfado, de cansaço, como se tudo já fosse visto e sentido, é como se possuísse mil anos e estivesse em um avatar, presa a uma realidade a qual conheço, mas que não posso alterar. Às vezes acho que venho caminhando desde o princípio do mundo, me sinto um ser antigo; milenar.
Esses anos de reclusão involuntária me fez amadurecer de forma áspera, mas ao mesmo tempo necessária para a construção daquilo, pelo que sempre lutei; a família. Ela tem para mim, uma importância vital!
Há muito venho fugindo, escondendo-me, da vida, do sol; mas ao mesmo tempo, se não fosse o peso da “prisão” que ainda carregamos; como um fardo interminável; tudo seria maravilhoso! É incrível, nos amamos! Todos! Pais e filhos; exercitamos entre nós sem pudor, esse sentimento magnífico.
Estou saindo aos poucos das minhas neuroses cíclicas, sou bipolar; não que tenha sido diagnosticado por algum médico, mas é forma que minha mente percebe a vida. Consigo sentir uma gangorra de emoções, ora densas, urgentes, intensas, ora apáticas, frágeis, pequenas, mas aos poucos o equilíbrio vem surgindo. Para amenizar a discórdia entre o tudo e o nada; fumo! O medo; esse ser soturno e ardiloso, tem me dominado, mas preciso ser mais forte do que ele; achei que o meu tempo de lutar estava acabado, mas ainda tem a última batalha.
Declarei guerra contra o lado negativo da força que há em mim, meu lado sombrio. Àquele mesquinho, egoísta, arrogante; agora se depara com aquele que se alegra com coisas simples, se emociona com sentimentos sinceros. Olho para meu marido e sinto um misto de amor e raiva; pensava que seria uma coisa fácil amar, mas não é!
Enchi páginas e páginas de cartas com juras de amor e é tão fácil jurar amor quando ele não interfere naquilo que você traçou pra si mesma, mas a prova das juras vem no resistir, quando todos os planos se implodem; vem no perdoar a nós mesmos e ao outro, quando nos percebemos desiguais; vem no permitir o amor apesar das diferenças. Temos uma personalidade forte, e nos amamos; essa mistura faz com que sejamos francos e essa franqueza magoa, mas nos faz mais unidos a cada dia...
O homem é um ser em contínua mutação e não seria diferente conosco, estamos aprendendo a lidar com o “nós”. Não o “nós” anterior, aquele do qual só falávamos, mas não exercíamos na sua plenitude, agora com ele aqui, o tempo de conjugação do verbo mudou; muito mais do que imaginei; isso exige adaptação, crescimento e aceitação, para encontrar o caminho a seguir.
Esse sentimento “tsunaminano” me faz repensar toda a minha caminhada até agora; o que fiz, por onde andei, quem conheci o que deixei; todo esse emaranhado de lembranças me fez ser, o que sou. E o que sou?
Aprendo a cada dia que o valor do amor é incalculável, que ele é pleno, perfeito, possível; mas é uma tarefa que requer pujança, esforço!
“Amar é um ato que de coragem”!
Seria bom se todos fossem do jeito de desejamos, do jeito que idealizamos, mas seria monótono e de uma previsibilidade mortal.
“Ele é a minha tese”, dizia eu segura, como uma pitonisa, mas ledo engano; eu sou a minha tese. Sou eu que cada dia aprendo um pouco mais de mim mesma, que me surpreendo com as minhas fraquezas, com meus medos, com minha fragilidade, e ele, foi o veículo para esse conhecimento.
Tudo que pensei; as avaliações que fiz; das pessoas e do mundo em minha volta, nada mais era do que um voyeurismo inverso; eu me observava através deles. Apesar da aparência tranqüila, me sinto um caleidoscópio, com várias formas diferentes, a partir do ponto de vista que cada um tem quando se aproxima de mim, mas não sou nenhuma delas. Sou uma obra inacabada, em construção contínua, permanente; vivo ciclos intermitentes, iguais, que se repetem, e que não consigo rompê-los; eu me “auto-saboto”.
É como se eu estivesse esperando algo; é como se eu não fosse daqui, me sinto estrangeira em qualquer lugar que eu esteja, é como se esperasse voltar para casa a qualquer momento; só não sei aonde é esse lugar ou melhor sei sim; o lugar é a Liberdade; que para muitos é algo impalpável, mas que para mim é o meu lugar; desde que o conheci nunca ficamos juntos em liberdade legal; sempre presos ou foragidos; isso há 24 anos!
Com ele me sinto bem, é como se fossemos do mesmo lugar, ele é um ‘dejavú’, não somos iguais, não pensamos do mesmo jeito, mas há algo que nos faz estarmos juntos, como um amálgama a nos unir.
Com ele; eu sou eu, me reconheço; sei quem sou. Com ele não sou o que achava que seria, mas sou o eu que reconheço sendo eu mesma. Nem sempre gosto do que vejo; ultimamente tenho detestado, mas o que vejo possui uma grande contribuição minha.
Mesmo quando não percebemos, traçamos caminhos...

Até amanhã amigos!!