quinta-feira, 3 de abril de 2008

FORAGIDOS

(Demoiselles D’avignon)

03/04/08
Que o dia seja tranquilo, produtivo e harmonioso, que faça brotar em nós energias transformadoras!
Boa Leitura!

Capítulo XVIII






Mulheres que esperam!
Quem somos nós? Somos seres invisíveis, destituídos de certezas e buscando equilíbrio a cada parte da etapa cumprida, na tentativa de não submergirmos no caos que é viver sem futuro
Como caminhar nesse terreno pantanoso?
Como manter a auto-estima e a sanidade, como retornar a vida livre resguardando o mínimo de respeito, quando estamos acuados na nossa invisibilidade?
São respostas que buscamos todo dia, para nos mantermos vivos, para chegarmos ao porto seguro que é a reorganização da família pós-martírio.
Não é uma escolha fácil caminhar ao lado dos que foram punidos, não é uma tarefa lúdica ser esposa ou parente de um homem preso ou foragido.
Caminhar por escolha própria, por veredas que não são suas e aceitar as futuras intempéries do tempo, resguardando o amor; é uma tarefa complexa; amar um cidadão preso ou foragido é um exercício de doação, é ultrapassar a si próprio e eleger o outro como prioridade; é vivenciar a incondicionalidade!
Estar ao lado de alguém apartado do convívio social é abrir mão de sonhos possíveis e se permitir aprender com as escolhas que fizemos; mesmo estranha aos olhos alheios; e reescrever a história da nossa vida.
Desejamos que nosso ‘príncipe’ venha acondicionado dentro dos nossos sonhos perfeitos; para só abrir o pacote e ser feliz; mas a sabedoria misteriosa da vida nos leva para o improvável, o desconhecido, o vertiginoso; e faz com que a força que dizemos sentir seja testada.
Quem somos nós? Somos mulheres que vivem o dia de hoje como se fosse o último, como se devêssemos absorver tudo num só momento, por não saberem como será a continuação do que está sendo vivenciado; muitas, arrimos de família, sustentáculos de esperanças desmembradas, vivem uma vida dual assumindo diferentes papeis, para conseguirem a aceitação social; são alçadas subitamente á condição de mantenedoras, na maioria das vezes escondem o seu vínculo com a prisão com receio do preconceito; comumente perdem seus empregos quando seus vínculos são descobertos; é como se possuíssem características físicas que as imputasse o descrédito como pena acessória, à pena que já pagam compulsoriamente com os seus maridos; é como se possuísse uma lepra moral.
A ida à prisão é sempre precedida de ansiedade, e na saída, sempre um sentimento de pesar e impotência, nos acompanha; É uma missão difícil construir relações estáveis ou equilibradas em uma vida dividida, onde os papéis são trocados conforme o cenário da ópera; construir bases emocionais sólidas nessas condições, é um prêmio reservado a poucos.
Quando não moram nos núcleos de pobreza do estado, vivem no penoso muito as negação; negam o quem são para serem aceitas; quando saem para visitar o preso, acondicionam as sacolas de ‘sucatas’ em bolsas de viagem para que os vizinhos não ficarem curiosos; muitas sentem vergonha da história que são participantes involuntárias. Outras vivem em morro e favelas, convivendo diariamente com a violência no batente da porta; acuadas; observando aos desdobramentos de uma guerra que não é sua; mas, ao mesmo tempo a comunidade é ‘o’ local ‘seguro’, em que podem ser elas mesmas, onde não precisam fingir ou negar quem são; terreno conhecido onde muitas possuem a mesma história de espera. Lá são pessoas comuns, são casadas com alguém, os filhos um tem pai, esse pai tem nome e seus vizinhos sabem para onde vão aos finais de semana. O caos da favela as torna livres! Muitas mulheres estudam, mas seus professores e colegas não as conhecem; delas; só vêem a face construída sobre a vergonha imposta; maquiagem usada para aceitação social. Aos vizinhos, são viúvas ou separadas; quando dizem que são casadas; os maridos trabalham em outro estado, estão hospitalizados ou morreram. Os filhos aprendem desde cedo que o pai está no hospital e quando já entendem o peso da masmorra, são orientados na maioria das vezes a também se auto-negarem; dizem aos professores, vizinhos e colegas que o pai está viajando ou está separado da mãe e sentem com isso desde pequenos, que não fazem parte da história social; que estão de fora.
Crescer profissionalmente em meio a essa situação, requer uma grande força de vontade e o abate de diversos leões diários, para continuar percebendo-se possível, a despeito do que pensam de nós, pois no imaginário coletivo, a opção pelo o que difere da ‘normalidade’ é sempre uma opção de caráter; mas é falacioso pensar assim; existem vários porquês, e o amor é um deles.
A vida das que acompanham seus maridos pelo mundo afora, não tem amigos, fala pouco, locomove-se pouco; no mínimo aquelas que querem que seus companheiros vivam e possam envelhecer juntos
Percebo que a vida me deu possibilidade de escolha; e ofereceu-me, ferramentas poderosas; que me permitiram, chegar até aqui, semi-inteira após 24 anos buscando a liberdade. Sou um ser feliz, deitei com os homens que quis, casei com o que amei, sou amada, nunca abortei; não por formação religiosa, mas por que tive sorte, não precisei ser confrontada com essa decisão; o destino foi generoso e me deu fardos possíveis de suportar.
Só falta a liberdade!

Namastê!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

FORAGIDOS



02/04/08
A beleza e a tranqüilidade da Vila Dois Rios, contrasta com as lembranças das dores ali sofridas, dos abusos, do abandono, da solidão...



Capítulo XVII

Muitos presos vieram conversar conosco durante o Festival; moças diferentes no pedaço; carne nova; soubemos que havia muitos problemas, jurídicos, de saúde e ficamos de ouvi-los antes de irmos embora; naquele momento éramos o contato mais próximo, com a direção geral, estávamos ali para seremos juradas, mas não custaria nada ouvir as demandas deles...
Eu e Valéria ficamos pouco no auditório, já tínhamos ouvido muito sobre o “Caldeirão do Diabo”; estávamos ali, queríamos conhecê-lo e fomos junto com alguns presos ver o lugar.
A cadeia era uma construção de três andares, velha e suja; já tinha visto dias melhores, agora amargava o esquecimento, estava como sempre lotada; possuía quase o dobro de presos do que a sua capacidade inicial de mil, e com os anos de degradação essas vagas viram umas 600, mas a unidade naquele momento abrigava 1.200 presos. Os corredores cumpridos, altos e escuros, dava um ar tenebroso ao lugar; era uma construção com uma arquitetura sólida, bem anos quarenta, escadas curvas e amplas ligavam os patamares; no térreo; no lado esquerdo tinha, a inspetoria, a cooperativa dos internos; uma parte da galeria era composta de cubículos individuais; mas onde moravam uns seis; e no final do corredor que foi divido ao meio por uma parede; ficavam doze “surdas”; celas de castigo, que só eram acessadas pelo lado externo do prédio.
Do lado direito, tinha a sala do CRI – Clube Recreativo dos Internos; vazia só com uma tv, mais à frente, a capela e depois o “rancho”, que era como chamavam o refeitório.
O primeiro andar, do lado direito era composto por cubículos individuais e no esquerdo os coletivos, já no segundo (mas que os internos chamavam de terceiro), as disposições se invertiam e no final do corredor da direita haviam celas destruídas onde ficava o isolamento; o castigo.
Depois fomos levadas a outro prédio que ficava atrás do primeiro, mas que não era visto da frente, estavam separados por um muro onde havia uma porta de ferro que dava acesso à outra edificação, só que mais nova; uma caixa de três andares, a qual chamavam de ‘anexo’. O andar térreo estava vazio, desativado e só os dois outros andares eram usados, oitenta presos ocupavam a unidade especial, em celas duplas, que eram usadas por três; ali também havia excesso de gente.
Ali ficavam isolados os presos que o sistema classificava de “periculosos”; eram separados do convívio com os outros pelo portão que só estava aberto por causa do festival; a situação no sistema estava confusa por causa desse isolamento e uma comissão de presos estava pleiteando, com o apoio da pastoral penal, a abertura definitiva do portão.
Na volta para o auditório fomos tomando pé da situação difícil em que os internos estavam; a jurídica já não funcionava há uns seis meses; o antigo assistente não voltou mais e não havia estagiário que quisesse pagar para trabalhar tão longe; o governo federal tinha acabado de sancionar a Lei de Execuções Penais, mas eles ainda não sabiam que direitos tinham; tudo estava muito confuso com o setor jurídico parado. A penitenciária estava cheia, muita criança e mulheres que se espalhavam pelas galerias e corredores; sentadas pelo chão como num piquenique, nos bancos; parecia que tinha gente em todos os espaços.
Quando chegamos ao auditório, um grupo de pagode se apresentava, e em seguida o evento ia começar; fomos conduzidas por um preso que fazia parte da organização para o nosso lugar no júri; o mestre de cerimônia abriu o concurso de música e poesia, agradecendo a presença de todos e o festival começou!
Do ‘camarote’, as autoridades observavam a festa; ainda não tínhamos sido apresentadas à direção da penitenciária, mas eles já tinham sido informados da nossa chegada e no intervalo fomos convidadas para o almoço na casa do diretor.
Caminhamos de volta, precisávamos do banho que ainda não tínhamos tomado e uma refeição caseira cairia bem; nas ruas de chão de terra e areia; folhas caídas e flores nos jardins e nas árvores. Como um lugar tão lindo podia abrigar o degredo?
A casa do diretor, tinha dois andares; linda, bucólica, ampla, arejada; tinha um quintal lateral de muro baixo, ficava de esquina, em sua volta árvores, e tinha um mar lindo à sua frente; ficamos encantadas, um lugar maravilhoso para estar!
De quase todos os cômodos da casa se via o mar, na parte de baixo; salas de visita e jantar e no segundo pavimento quartos; além de mim e da Valéria, havia mais duas estagiária que também foram convidadas, e todas nós fomos alojadas lá.
O almoço foi tranqüilo e saboroso; na mesa, Milton, Amiche, Valéria, eu, as duas estagiárias, o comandante da companhia e o diretor; o cozinheiro era um interno e trabalhava maravilhosamente bem; após a refeição Milton subiu dizendo ir tirar um cochilo, as estagiárias o seguiram, o Sargento Amiche voltou para a unidade, o restante ainda continuou na mesa; conversando.
Às vezes a vida nos prepara armadilhas para testar a nossa resistência, a nossa consciência...

Namastê!

terça-feira, 1 de abril de 2008

FORAGIDOS



01/04/08
Bom dia amigos; hoje acordei com Chorão cantando... além do bem-te-vi, é claro!


”Buscando um novo rumo que faça sentido nesse mundo louco com o coração partido/ Tomo cuidado para que os desequilibrados não abalem minha fé pra eu enfrentar com otimismo essa loucura /Os homens podem falar mais os anjos podem voar/ Quem é de verdade sabe quem é de mentira. Não menospreze o dever que a consciência te impõe não deixe pra depois valorize a vida /Resgate suas forças e se sinta bem, rompendo a sombra da própria loucura. Cuide de quem corre do seu lado e de quem te quer bem Essa é a coisa mais pura”...
Charlie Brown Jr.
Boa Leitura!



Capítulo XVI

O dia amanheceu opaco, esmaecido; as coisas parecem mais lentas, as ações rápidas demandam um esforço maior; um dia preguiçoso! Eu sigo digitando ainda meio confusa com o monte de memórias que me tomam de assalto e buscando entender como montar o quebra cabeça da minha vida.
Vejo que tenho muitas boas lembranças que serviram de alicerce para os anos difíceis, minha alma tem um compromisso com a felicidade e apesar de tudo sempre tive sorte; agora percebo.
A liberdade é o sonho que persigo há anos; andar sem olhar para trás; sentar de costa pra rua, descer do táxi na porta de casa, conversar com tranqüilidade com quem não conheço; relaxar sem antes avaliar o ambiente; coisas que para muito são banais; sem importância; para mim elas sinalizam a possibilidade de sorrir, de distencioar, de desarmar o espírito.
Há vinte e quatro anos que não me sinto livre!
Não por estar casada; gosto de estar com ele; o amo; temos uma sintonia fina sub-reptícia, nos conhecemos; mas as pressões externas sempre nos desviaram da tranqüilidade “...que contradição, só a guerra faz, nosso amor em paz...” A prisão nunca nos permitiu amar por inteiro e; mesmo foragidos; ela se interpõe como uma sombra agourenta sobre nós.
É impossível amar alguém que está preso, e se sentir livre; não há como não vivenciar conjuntamente a dor da distância, a impotência ante á vida. A pena e extensiva a família e todos pagam conjuntamente; não tem como escapar; mesmo aqueles que não amam, mas por motivos próprios acompanham presos; sofrem; ou por si, ou pelo outro, ou pelos dois; depende do grau de sentimento de cada um.
Levei anos vivendo aos pedaços, em doses homeopáticas; tentando me equilibrar na corda bamba; administrando meus medos, e não criando expectativas sobre o futuro. Hoje olhos meus filhos e sinto que valeu; eles estão preparados para viver em qualquer parte do mundo, sabem quem são e quem somos e sentem orgulho do que temos tentado construir; não houve guetos, não os busquei; quando a sombra da opressão pairou, não permitimos que violasse o carinho que tínhamos; eles sempre foram sagrados, respostas divina ao amor que sentimos. Foram apresentados ao cinema, ao teatro, aos museus, ao circo, os shows; tudo que agregasse valor cultural; tudo que revertesse em herança benéfica daquele tempo de família partida.
Nunca poupei; quando solteira não precisava, quando casada não tinha o quê, mas tudo que tive serviu para formação deles; para que se percebessem além de mim ou do pai, para que se enxergassem possíveis, independentes, para que pudessem ocupar o seu lugar no mundo, sem medos.
Sempre foram meus companheiros, amigos; pais; além de filhos; enxugaram minhas lágrimas, me deram conselhos, protegeram minha sanidade, nunca houve assuntos ocultos falamos de tudo; educação, sexo, racismo, preconceito, opção sexual, homofobia, maconha, álcool, cocaína, boca de fumo, prisão, pedofilia, direitos, deveres, morte, violência, respeito, democracia; e todos outros assuntos que queiram discutir. Nada é proibido, tenho que estar aberta; ouvi-los são jovens; tento entender seus pontos de vista; tudo é passível de ser conversado; que dirá hoje com a Internet, que os leva a todos os lugares, assuntos, imagens, pessoas; se não houver um canal de amizade; já era, os perdemos para o mundo sem ter a chance de dizermos como foi conosco e que é normal se ter medo ao mesmo tempo se sentir invencível, ter namorados, usar camisinha, beijar muito; faz parte da adolescência da juventude, não posso esquecer que tive a idade deles e que teria adorado se minha mãe conversar-se comigo, talvez hoje seríamos grandes amigas. Os meus são parceiros de fé, que conquistei com amizade, respeito e muito papo! E quando nada disso não funcionava; aí só tinha uma saída; incorporar dona Angélica: - Cala a boca todo mundo, quem sabe sou eu e acabou fim de papo! Sempre fui respeitada.
Sei que voltarei a falar dos meus filhos mais lá na frente, não tenho uma lógica para escrever, nem método; as palavras vão saindo e tento capturá-las antes que fujam de mim. Não sei se é assim com tudo mundo. Comecei a escrever ha um ano, era divertido; primeira página, segunda; cheguei à décima; empaquei, travei, congelei, as idéias se rebelaram e pararam de sair da minha cabeça, era como se eu estivesse vazia, oca. Dizem que os escritores fazem obras primas, quando estão depressivos, tristonhos; não sou escritora e talvez nunca seja; tenho facilidade de escrever; às vezes, mas não regularmente; sou terrivelmente influenciada pelo meu exterior.
Experimente escrever numa casa de dois cômodos com cinco pessoas, televisão ligada, uns lendo, outros dormindo, um calor insidioso; desconcertante. De vez em quando alguém te chama para coisa nenhuma e lá se vai a construção da frase pra casa do cacete; novo esforço para retomar o ritmo, brigar com o teclado para que ele seja mais rápido e possa capturar um número maior de letras. Não é um exercício fácil; é necessário abstrai-se de tudo em volta, tentar ouvir as vozes que ainda baixinho ecoam em você; sem contar, o peso psicológico de estar foragidos, da falta de dinheiro, da saúde meio gangorra, da menopausa, da dor da coluna... Dando essa desculpa levei um ano para tentar de novo.


Namastê!

segunda-feira, 31 de março de 2008

FORAGIDOS


(Foto Artbychrysti)


31/03/08
Oi Amigos!
Como sempre nada de novo, só á vontade de virar um pássaro, um Ícaro, e planar sobre a vastidão, não tão alto para que o sol não queime as minhas asas, mas o suficiente para sentir a amplitude do mundo.

Ás vezes sonho com estradas floridas, caminhos tranqüilos em que só se precisa, absorver o perfume, admirar o magnífico espetáculo da natureza, e perceber a simplicidade do amor, que nos é oferecido gratuitamente.
Nunca estivemos juntos em belos lugares; sempre vivemos o dia de hoje, nunca viajamos em família, nunca fomos á praia, sempre as grades, sempre a espera, a longa e interminável espera, para que um dia possamos ser completos e então nos divertir com a beleza da vida.

Capítulo XV

Não era fácil ser sozinha sabendo que tinha casas confortáveis em duas cidades diferentes para voltar; prometi a mim mesma na primeira crise de pânico e solidão, que se eu suportasse durante seis meses viver longe da família, sem pirar eu estava pronta para fazer o que quisesse; nunca mais voltei para aquelas casas.
Chorei muito, tive medo, senti um abandono enorme, mas tudo era melhor do que o domínio; sempre fui um ser de alma livre; se aqui estou foi por escolha própria, sempre assumi a responsabilidade de viver. A família era a proteção sufocante, despersonalizadora; ela canibalizava meus sonhos. É amigos nunca estive a venda!
O Esmeraldino era uma penitenciaria difícil; muita fuga e muita porrada; era uma cadeia masculina, dura; difícil para o trabalho feminino, as visitas eram recebidas do lado de fora dos pavilhões e comiam sentadas em toalhas, uma cena triste, mas com a ida de um novo diretor, José Tortma; para a unidade e por ter sido preso político, havia um ar me mudança positiva para os preso; os guardas ficaram putos. Logo o trabalho começou a ser sabotado pelos insatisfeitos e ele teve que começar a andar com escolta; e como morava na zona sul, eu pegava carona com ele, esperava na Atlântica e depois pegávamos a Valéria na Leopoldina, ele ia com uma espingarda 12 entre as pernas, quando chegava na entrada da Av. Brasil, se espigava, pedia para ficarmos atentas e mandava o motorista que também era guarda, sentar o pau; foi um tempo emocionante; enquanto isso o sistema pegava fogo... Na Frei Caneca havia tido uma tentativa de fuga e tinha, presos isolados e machucados, mas não era nosso território; ainda.
No Galpão da Quinta, as travestis, brigavam, se cortavam; de vez em quando chegava uma na jurídica querendo morrer porque o amante a trocou por um outro preso; era hilário se não fosse trágico, os guardas não amaciavam; porrada em todos; aquilo me incomodava profundamente; era injusto! Nós enchíamos o saco do Major Barros, o diretor, sobre o comportamento desrespeitoso de alguns guardas; ele gostava da nossa cara de pau e tentava aparar as arestas com os guardas, que não morriam de amores por nós. Ali conheci, o cara mais respeitoso de todo o sistema penal, humilde, mas altivo, corajoso, tem um lugar especial no meu coração; Sargento Amiche; branco, estatura mediana, magro e com um “bigodão mexicano” que o deixava engraçado, depois foi transferido para Ilha quando eu o reencontrei depois.
Gostávamos do que fazíamos e as jurídicas em que trabalhávamos estavam sempre em dia. Logo recebemos um convite do diretor da Penitenciária Feminina Talavera Bruce em Bangu, fomos trabalhar mas não quis ficar; o Talavera era uma cadeia emocional; difícil; mulher é mais emotiva, tem TPM e exerce a agressividade como autodefesa, são mães, esposas, a maioria sem visita; os homens não costumam ser solidários e elas acabam sozinhas e só alguns familiares vão nas visitas; era uma cadeia triste, era um lugar diferente de outros, que estava habituada a trabalhar; cadeia masculina; seca, bruta, cheia de testosterona e perceber essa mesma brutalidade ali entre mulheres me fizeram ficar insegura; no primeiro dia chegou uma interna:
- E aí vadia ? Cadê a outra advogada? Vocês todas são umas putas mentirosas!
Fiquei gelada, sem saber o que dizer; apareceu uma guarda na porta e ela se acalmou, no segundo dia outra tirou a blusa na jurídica e ficou de sutiã só para chocar o bobão do estagiário; ali vi que não dava para continuar, que eu não queria prejudicá-las, mas não queria trabalhar sobre aquele tipo de pressão; demos uma força mas não ficamos. Foi quando recebemos o convite para trabalhar na Alcindo Guanabara; no anexo da Câmara dos Vereadores; um lugar de paredes forradas de madeira escura; as salas tinham móveis escuros, pesados; o chefe da jurídica era Vitagliano; gente boa, simpático, no rosto marcas de antigas espinhas, gostava de trabalhar; nos indicou para o gabinete do Dr. Avelino. Éramos poucos; eu, Valéria Negrão, Vinícius Cordeiro, que hoje está na política e mais um rapaz que não me lembro; papel, burocracia, até o dia que chegou um convite vindo da Ilha Grande; os internos da penitenciária estavam convidando todo o gabinete para o Festival de Música que aconteceria no mês seguinte.
Chegamos a Mangaratiba cedo, pegamos a Loretti e seguimos rumo ao Abraão.
A visão da ilha com a aproximação da barca era fantástica; uma das montanhas formava um bico de papagaio e toda a costa era de um verde desbundante!!
A Ilha Grande já foi entreposto para o tráfico ilegal de escravos; no século XIX, D. Pedro II a visitou ficou deslumbrado com a beleza do lugar e resolveu comprar a Fazenda do Holandês; hoje, Vila do Abraão e a de Dois Rios.
Na Fazenda do Holandês foi construído o Lazareto, que serviu de centro de triagem e quarentena para os passageiros enfermos de tuberculose e cólera que chegavam ao Brasil; funcionou durante 28 anos. No princípio de 1900, o Lazareto foi desativado e passou a funcionar como presídio político; a Colônia Correcional de Dois Rios; no Abraão; que abrigou os preso da Revolução Constitucionalista de 32 e em 1940 foi construído em Dois Rios o Instituto Penal Cândido Mendes, para presos de alta periculosidade.
A Barca ancorou no cais e fomos apresentados a um lugar bucólico, tranqüilo. Do lado direito um antigo Clube desativado, perto do posto da PM, do lado esquerdo comércio; em frente, começava a estrada de terra que cruzava a serra e acabava na Vila Dois Rios.
A viagem até lá era uma aventura; muitas flores, pássaros, uma vista linda, um ‘marzão besta’ escancarando o seu verde a cada curva que o caminhão fazia; levamos uns quarenta minutos até chegar ao topo da serra; a visão do porto do Abraão era fascinante. Continuamos a andar e encontramos alguns presos trabalhando em um local chamado “britador”; dali em diante; mais quarenta minutos de descida; e mais um show da natureza; as águas eram azuis e a areia branca, um ponto que começava a crescer e divisávamos aos poucos uma praia, mais uma curva e o colar verde em volta dela, uma outra volta e o prédio da penitenciária aparecia pequeno como uma caixa fósforo, que foi crescendo de forma lenta; com o tempo divisamos a Vila, pessoas andando, presos em cima do prédio central, guardas nas guaritas, até que chegamos à entrada do vilarejo e percebemos que aquela paisagem deslumbrante era habitada. Havia muito vai e vem, fomos levados para o portão da unidade, pois a festa estava começando.
“(Não posso mais viver assim ao teu ladinho / por isso colo o meu ouvido num radinho / de pilha / pra te sintonizar / sozinha numa ilha / Sonífera ilha descansa meus olhos / sossega minha boca / me enche de luz...)”
Dois Rios, Ilha Grande, Cândido Mendes, Cadeião do Inferno, Choque de Monstro, Chora na Cruz; lugar filha da puta; bonito e sofrido, um mar lindo que servia de muro barrando a fuga dos mais afoitos, um céu colorido que fazia sonhar, lugar de choro e gemido; uma incongruência total; me apaixonei!
A Vila parecia uma cidade do interior, ruas de terra e areia, casa baixas e de aparência confortável, que pertenciam ao Estado e eram ocupadas pelos guardas, que trabalhavam ali. Logo na chegada tinha uma pequena capela; me lembro do armazém perto da oficina, era uma rua larga que ia dar na praça da frente da penitenciária, paralela a ela era a praia, linda, perfeita do outro lado, o cinturão verde da mata; continuando seguindo pela lateral da penitenciária a rua se estreitava; as casas rareavam, e começavam a aparecer alguns barracos; era o “favelão”. Na lateral oposta um pouco afastado e mais perto do mar, havia a Companhia Independente da Polícia Militar, que era o destacamento que fazia a segurança externa da colônia penal.
O caminhão sacolejou até o portão; a primeira pessoa que vi foi o Sargento Amiche que agora era chefe de segurança; e Milton nosso ex-assistente jurídico, que tinha uma casa no Abraão; fomos bem recebidos; além de nós duas, haviam outros convidados, e todos foram encaminhados para a casa do diretor, para deixar as bagagens; íamos ficar o fim de semana; A Ilha já estava movimentada, secretário de justiça, diretores de unidade, militante, era o primeiro governo Brizola, as autoridades chegaram de helicóptero, não sacolejaram a bunda nos buracos da estrada, talvez se assim o fizesse aquela estrada seria bem melhor.
Chegamos ao presídio e a música já estava rolando; o portão abriu e apareceu um pátio, cachorros deitados e presos parados nos degraus da entrada; ao subirmos demos num hall; salas em ambos os lados, na direita um corredor comprido na esquerda uma escada; no segundo andar funcionava o gabinete do diretor, logo abaixo a sala do chefe de segurança, no lado oposto; a jurídica. Tomamos o rumo do corredor, a unidade estava cheia de familiares e convidados, muitas crianças, jovens, todos falando, rindo, se locomovendo; uma festa; a música ia aumentando e logo chegamos no auditório.
Lotado; essa era a palavra; gente entrando e saindo e um grupo se apresentado no palco, crianças passando, as autoridades, ficavam em um espécie de camarote; local estratégico para observação.


Namastê



domingo, 30 de março de 2008

FORAGIDOS

(Foto Douglas M)


















30/03/08
Bom Dia!
Muita Luz e Muito Axé!
Boa Leitura!


Enquanto tento escrever, toma-me de assalto lembranças das mais diversas, fatos há muito esquecidos; imagens, cheiros e gostos fazem parte dessas memórias...

Capítulo XVI

Minha mãe matando galinha no quintal; pagava a bichinha, dava, uns golinhos de pinga; raspava as penas do pescoço, e ‘créu’, já era a bichinha, o sangue era separado em uma tigela para fazer a molho pardo, recordo meu pai trazendo os mendigos para comer na varada, e minha mãe dando ‘pitís’homéricos: -Tá maluco, isso aqui não é a prefeitura, parece uma procissão! E ele esquentava a comida e servia em pratos que minha mãe deixava lá no quartinho dos fundos, e quando ela falava, ele dizia: - Você gostaria de comer numa lata de leite? E como vai dar a comida numa lata? Aqui todo mundo como em prato, não se incomode eu lavo depois. Era um ser humano respeitoso!
Uma vez ela que não gostava de comer em prato rachado ou lascado foi premiada no almoço, com o que ela tinha mandado jogar fora; não deu outra; tacou o prato na parede; meu pai perguntou: – Ué! é pra quebrar? E jogou o prato de bife no chão, e logo tudo estava no chão; insatisfeito Seu Oswaldo se levantou foi à cozinha pegou a lata de mantimento cheia de açúcar e emborcou na cabeça de Dona Angélica; que fazer? Todos nós ficamos duros “- ESTÁTUA”; as empregadas ficaram mudas e putas, teriam que arrumar tudo, mas mantiveram a placidez; eu dava gargalhadas insanas por dentro; “por fora uma bela viola”; fiz uma cara de chocada e caí fora em cinco segundos : - Vou almoçar na casa de Tio Adhemar!!
Me lembro da vez quando ganhei um pintinho lindo; amarelinho, que veio com um laçinho rosa no pescoço e eu o matei esmagado sem querer; dei banho no coitadinho, e coloquei em cima de uma fraldinha para ele secar, só que o bicho não ficou no lugar, e quando voltei para vê-lo, o dito estava no batente da porta; pisei no coitadinho. Fiquei chocada; os pais não deviam dar bichinhos que as crianças não tivesse condições de cuidar ou então assessorá-los nesses cuidados; não quis mais ter bichinhos!
Das corridas de urubus na maré baixa; amarrávamos uma fita no pescoço dos coitados e ficávamos correndo de cima da balaustrada e os urubus lá na areia correndo também; quem chegasse primeiro ganhava pelanca; adolescente é um bicho babaca às vezes fazem cada demência...
Fecho os olhos e posso ver minha rua, Kung-fu Fighting toca ao fundo; vejo o Largo da Ribeira, a padaria, a sorveteria, os barcos que fazia a travessia de Piripiri e Paripe; vejo a feira e sinto o cheiro do umbu, de caju, de siriguela, bacias de rala-côco, outros mariscos, das cordas de caranguejo, siris, lulas, piabinhas; do caldo de sururu e da mariscada exalando seus cheiros divinais entre as barracas; e ainda o acarajé. Ah! O acarajé! Essa é minha identidade baiana o cheiro da minha infância, o gosto que me traduz, cheiro das minhas alegrias, das brincadeiras infantis, o sabor de felicidade!
A rua principal do bairro, a Lelis Piedade, cortava minha ao meio e, na esquina encostada na loja de ferragem, estava ela; a “baiana do acarajé”; chegava cedo varria o espaço, jogava água com sabão pra espantar a urina dos bebuns da noite e começava a armar seu tabuleiro; nove e meia, dez horas da manhã ela chamava umas crianças da rua e distribuía uns mini acarajés; depois só parava as nove da noite era, abará, bolinho de estudante, cocada, acarajé; o dendê invadia meu quarto, meus pulmões; um cheiro de felicidade, alegria e respeito; todos os meus sentidos se despertam geneticamente baianos no encontro lascivo com o acarajé.
Lembro-me também do primeiro presente que comprei para um namorado; era uma “atualíssima” camisa cor de abóbora de gola cacharrel e com bolas pretas; um horror, mas em 75 era moda, mas o cara beijou uma outra garota no dia anterior; então, desfiz o embrulho vesti a camisa e quando o encontrei, terminei com ele; chorei muito, mas foi melhor do que ele ter ficado com o presente e eu com o chifre.
A minha casa ficava na ponta da península itapagipana, isto quer dizer: - Praia, veraneio, férias! Era parente o tempo todo, saia um vinha outro, minha mãe cozinhava muito bem e tratava com carinho as pessoas; tinha prazer em ter a casa cheia de súditos que a seguiam; primos, cunhados, tias, sobrinhas, irmãs. Houve uma época que minha avó, Maria, mãe de mamãe, foi passar alguns meses conosco, depois da morte do meu avô Pedro; era evangélica, vestia-se de preto, usava um cabelo preso em um coque, mas quando os soltava vinha quase no tornozelo, lia a bíblia o tempo todo, mas falava mal de todos o tempo todo. Fui premiada e ela ficou no meu quarto, e lia com ela a bíblia todas às noites; as mensagens eram lindas, e ela lia com um respeito, uma quase adoração àquelas palavras, mas se comportava de forma diferente; foi aí que comecei a aprender que nem tudo que a boca fala o coração sente.
No inverno era mais tranqüilo; aparentemente tranqüilo; tio Adhemar estava lá toda hora; Seu Souza que era amigo de meu pai e que tinha quase oitenta anos, acabara de casar com uma moça de dezenove, almoça lá todo os sábados; ia jogar gamão com o meu pai, não muito gostava do tio Adhemar; ele após comer tirava a dentadura e a limpava no guardanapo; minha mãe olhava apopléctica para meu pai e o Souza nem aí. Meu pai dizia que ele era velho, que não fazia por mal, que não se podia constranger um homem daquela idade e minha mãe dizia: - Daquela idade uma ova; a mulher dele está grávida; ele é porco; ou fala você ou falo eu!; mas ela nunca falou nem ele também.
Adorava assistir filme pela madrugada a fora, sempre escondida para minha mãe não ver; meu pai chegava de madrugada da casa do meu tio e como não tinha sono ia ver filme e lá vinha eu na ponta dos pés me juntar a ele; Combate, filmes de cawboy, Bat Masterson, A marca do Zorro... e quando ela pegava falava pelos cotovelos e o sono dele chegava rapidinho, e o filme já era. Nisso nós duas nos parecemos a nossa língua não é fácil, falo muito, até esgotar as variantes, as possibilidades, não dou trégua e acabo vencendo por total desestabilização mental do oponente.


Namastê

sábado, 29 de março de 2008

FORAGIDOS

(Foto Fabio Rex)
29/03/08

Ás vezes; penso que não vai sair nada que preste daqui!
Minhas idéias são desconexas, às vezes repetidas, sem unidade ou uma cronologia; as lembranças vão surgindo e vou capturando-as, para que não se percam de mim. Pensei que fosse fácil lembrar, mas quando se começa, percebe que existem milhares de histórias e momentos, que marcaram nossa caminhada e forjaram nossos sentimentos.
Será que alguém vai ler isso?
Não pensem que a vaidade me leva a exposição; ao contrário; a necessidade obriga a nos expor. É talvez a única forma de dizermos que estamos vivos, que somos possíveis, que nos amamos, que somos “normais”, que temos o direito de andar pelas ruas sem medo, de exercitar a gargalhada, de interagir com os amigos, fazer novos também.
O foragido pobre tem que ser discreto, falar baixo, passar entre os pingos da chuva, ser invisível; quando é rico; muda de Estado, compra uma mansão, um carro vistoso, ou sai do país, quando é pobre no máximo muda de casa e torce que ninguém que conheça more perto de onde foi morar.
Foragido não tem crédito, não tem documento e tirar documento falso seria agregar mais problemas; é crime; então tem que ver, sem ser visto, andar no “sapatinho de algodão”; delicadamente, torcendo que os céus sejam condescendente e nos ofereça a invisibilidade.
Manter a sanidade, mental, emocional, pessoal e familiar é um dos trabalhos de Hércules; todos os valores são colocados à prova, a família fica de cabeça para baixo e nessa hora só amor, esse sentimento especial nos salva da desunião, do tédio, do medo, da frustração, da incerteza, e nos oferece esperança.
E se além de pobre, o foragido aposentou-se do crime; aí a pobreza bate à porta e chega a hora da verdade; a hora da reorganização, da confiança no que sentimos, a hora da expiação das culpas, dos acertos de contas pessoais. E se após tudo isso, pernacerem juntos; esse amor vira um amálgama indestrutível.
Há dois anos que quase não saio; vejo tv, um terror; leio muito e levei muito tempo com pena de mim; de nós, de tudo; fiquei triste, ele pelo seu lado precisava de tempo para encontrar-se, para perceber-se cidadão, para se localizar no espaço novo!
E não é fácil a adaptação de quem ficou, trinta e nove anos, preso dos quais quinze nos últimos anos. Mas o amor suportou as frustrações e ainda continuamos aqui, dizendo que temos o direito à liberdade.




Capítulo XIII

Meus tios eram pessoas boas, alegres, adoravam receber, tia Nygea era uma leitora nata, devorava vários livros ao mesmo tempo; fumava e lia; lia e fumava.
Mas minha hora era aquela, já estava com vinte e três anos, queria sair da redoma, da previsibilidade, me arriscar; não digo que foi uma decisão fácil, senti medo, pensei que minha vida ficar sem rumo. Não é fácil trocar a segurança de um lar “normal” para encarar o desconhecido, mas um dia, como outro qualquer, acordei, fui ao supermercado peguei algumas caixas de papelão; enchi com minhas coisas e parti pela porta dos fundos; foi uma decepção; ligaram para minha mãe em Salvador, mas eu já era maior de idade; não teve jeito.
Desse dia em diante nunca mais coloquei os olhos sobre eles; sei que já faleceram, sinto saudade, mas a vida seguiu o seu curso natural e a partir daí comecei a fazer escolhas nas quais a antiga família não mais se encaixava; agora era hora de construir novos laços; ficar era estar em uma gaiola de ouro, sempre recebendo, nunca opinando, sempre aceitando; para mim era melhor errar tentando.
E fui, ‘sem lenço e sem documento’, nessa época eu recebia uma parte da pensão do meu pai, que tinha sido funcionário público; um Exator de Contas do Estado da Bahia. Com a pensão; que antigamente só servia para ir ao cinema, comprar, bombons, roupas da Hot Chocolate, Cantão Quatro, Dimpus..., passou a servir para viver. No princípio fui para casa de Valéria, mas depois de um tempo a mãe dela; pedagoga começou a tentar convencer-me a voltar, dar uma trégua para família, etc, eu ouvia mas ia levando, adiando qualquer decisão
Foram tempos legais; rua Lins de Vasconcelos; Grande Méier.
Saíamos de madrugada; a Penitenciária Esmeraldino Bandeira, ficava em Bangu; nos dividíamos entre o Galpão da Quinta e os plantões no Esmeraldino, os presos gostavam do nosso trabalho; éramos boas em execução penal.
Ver o sol nascer na Avenida Brasil passou a ser comum; o soldo que vinha de Salvador para minha conta, bancava as despesas com o trabalho gratuito; no meu tempo estagiário era voluntário; trabalho não remunerado.
Depois de fugir muito dos conselhos da mãe de Valéria, mudei-me; fui morar em Vila Isabel a princípio em um pensionato para moças; uma vaga na parte de baixo do beliche e uma porta de armário, com cadeado; sem cadeado era furto na certa; tinha vendedoras de lojas, cobradoras de ônibus, diaristas, babás, cabelereiras, etc; no meu quarto havia seis beliches; doze moças.
Homem era proibido, não entrava, os namorados esperavam na porta da rua. Foi a época de todos medos, do pânico, do choro, da insegurança, nunca tinha pensado o trabalho que era viver sozinha; me lembro do papel higiênico, era preciso economizar e só era comprado quando vinha à menstruação, fora isso haja jornais velhos, recolhidos, nos mais diferentes lugares. Depois me mudei para rua Araújo Leitão, foi à época da dureza braba; eu passava o dia todo fora, trabalhando e estudando; para economizar, tomava café da manhã, almoçava e jantava no presídio, com isso me tornei uma pessoa presente nas unidades que trabalhava e depois de um ano, ganhei três “Elogios” dado pelo governo do Estado, por competência e dedicação; ledo engano não era dedicação; era necessidade mesmo!
Mas com a economia que fazia podia pagar um quarto, que era melhor do que a vaga; onde rolava brigas; muita mulher junta, muita coisa espalhada; muito caô!
Lá, na Araújo Leitão morava numa casa de vila, muito bonitinha, com uma senhora sozinha que tinha um gato. Não era permitido cozinhar, receber visitas, nem ver televisão na sala e se tivesse algum aparelho elétrico tinha de ajudar na luz, que eram de no máximo 60wts, mas fora isso ela era invisível; não incomodava; ficamos até amigas e passei a fazer o mercado; do meu bolso é claro; e o jantar com ela, que era portuguesa e cozinhava muito bem; mão de vaca, era expert em fazer xepa, sempre tinha uma salada de fruta, uma banana assada. Assim era minha senhoria; deve ter morrido milionária!!
Nessa época já estava no terceiro ano de faculdade e fazia um ano que estava fora de casa, trabalhava agora no centro da cidade, na rua Alcindo Guanabara e ficou mais difícil, já não dava para tomar o café da cadeia e às vezes fazia fórum em jejum, mas sempre jantava, sempre rolava um alimento naquela sala escura do Andaraí ou então filava a bóia na casa da Valéria.
Levei um ano dando plantões semanais em Bangu e na Quinta da Boa Vista; depois começamos a atender no Sanatório Penal em Bangu; vivíamos de trabalho, respirávamos trabalho, ela fugia dela e eu fugia de mim. Nesse momento fomos convidadas para trabalhar na jurídica central; não era interessante, muito pelo contrário, era monótono; líamos e dávamos andamento nos casos que chegavam até ali através de cartas ou que eram encaminhadas pela gabinete do secretário de justiça.
Papel, papel e mais papel. Uma rotina de escritório, fichas de término de penas, prontuários, ofícios; no presídio havia o contato com o ser humano, e era possível avaliar melhor a situação, a cadeia era alegre apesar de violenta, era menos comercial que hoje, mais solidária, uma pobreza homogênea!
Cada Unidade tinha sua característica diferente; Galpão, os gays, Esmeraldino me lembrava um filme de campo de concentração; aquela poeira, um monte de homens grudados nas cercas de arames um lugar árido, unidade violenta; Frei Caneca era cultural apesar de perigosa; Água Santa era porta de entrada; os presos chegavam ao sistema penitenciário por ela de lá eram “pulverizados”; Ferreira Neto (Nierói) era cadeia mamão para filhinho de papai, otário, que se envolvia no crime, o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”; Talavera, feminina; Candido Mendes/Ilha Grande; o caldeirão; “onde filho chora e mãe não vê”; um lugar de uma beleza paradisíaca, mas predestinado ao sofrimento; já foi lazareto, presídio e penitenciária.


Namastê!

sexta-feira, 28 de março de 2008

FORAGIDOS


(Foto LGHPHOTO)













28/03/08
Olá Companheiros!
Estou de volta e contente por conversar com vocês. Não me arrependo da felicidade que sinto, nem de acordar todos os dias e agradecer por estar viva e por ter quem amar.
Boa Leitura!

Capítulo XII

No dvd passa Electra, só escuto; enquanto ele dorme; minha filha vê o filme. Continuo digitando pedaços de mim...
Ele é um presente de Deus, e eu percebo o amor divino, através do sentimento incondicional que ele me oferece, na tolerância com o minhas falhas, com a alegria infantil na convivência, na grandeza da mudança interior que se proporcionou ao encarar nas novas escolhas com coragem; um ser sem medo de amar!

Meu pai morreu de câncer, quando eu tinha dezoito anos. Foi uma morte lenta e doída; com metástase nos ossos. Era um sentimento de impotência de inutilidade que acordava comigo toda manhã, nada eu podia fazer, só orar e torcer para que ele sentisse menos dor. Meus primos; filhos de tia Alaíde, sua irmã; eram médicos; ele teve um acompanhamento competente, meu primo Décio, que também era meu padrinho; possuía uma clínica e no princípio ele ficou lá, depois de algum tempo foi para casa com toda aquela parafernália médica; cama de hospital, oxigênio, aparelho de pressão, enfim tudo que era necessário. Nessa época ele começou a tomar morfina por causa da dor nos ossos e que era enviada pelo tio Evandro e avião do Rio para Salvador; comecei a perceber a fragilidade da vida e a me dar conta que poderia ficar órfã de pai.
Minha mãe com quem até aquele momento era difícil de interagir, também caiu doente; teve um enfarto no quarto ao lado; recebi a notícia quando voltei do colégio: - Sua mãe enfartou, mas já foi medicada, está na tia Ana e precisa descansar!
Fiquei congelada!! A perspectiva da perda dos dois me paralisou. Minha mãe passou quinze dias fora, enquanto eu revezava com a enfermeira; aprendi a dar injeção, a dar banho, a cuidar dele; coisas que minha mãe fazia. Eu ficava com ele durante à tarde, mas agora tinha que ser de noite também; tinha dias que não tinha enfermeira para pernoitar.
Com a volta de minha mãe, passei a ajudá-la a cuidar dele, comecei a desenvolver por ela um carinho que antes não sentia. Ao vê-la com 1:57 de altura, carregar e dar banho em um homem de quase dois metros me fez começar a amá-la; foi digna, forte; incansável até o fim.
Mulher Porreta!!
Mas mesmo assim não conseguimos criar um canal de comunicação que nos permitissem viver juntas; ela tinha ciúme do amor do meu pai; achava que eu competia com ela. As más línguas diziam que eu era filha de meu pai com uma amante e por isso, me engolir era algo difícil. Essa história nunca conseguir saber direito e agora já não tem mais importância; sei quem eu sou e isso me basta! Não que ela não tenha tentado me amar, mas não havia sintonia, não conseguíamos nos aproximar.
Quando começamos a mexer no baú da nossa história percebemos lembranças há muito esquecidas...
Sempre houve controle lá em casa; ‘mamy’ nunca deixou as coisas serem fáceis; tivemos incontáveis atritos dos quais meu pai era o mediador; nunca foi por estudo; sempre por rua ou namoro:
- Você é a pessoa mais “rueira” do mundo!!
- Simone? Morreu, o enterro sai amanhã! Berrava ela do corredor para o portão onde; minhas amigas com o maior “cagáço”; iam me chamar.
Me lembro de Isis, Olga, Olgaíde; eram meninas legais; acho que todas casaram. Aprendemos a fumar juntas; eu pegava escondido uns hollywoods do meu pai, e fumávamos escondidas na varanda da casa das meninas; enquanto fumávamos uma sempre ficava vigiando.
Olga e Olgaíde eram irmães, moravam na minha rua, mais pro final, no passeio oposto; era uma família grande, elas eram órfãs e moravam com os tios e primos; o mais velho cantava em um conjunto e ensaiavam na sala da frente que tinham dois janelões voltados para rua e que dava para uma varanda de muro baixo. Ali era a nossa arquibancada. Eram mais velhos; alguns bonitos, mas que não nos davam a menor bola; já eram profissionais e tocavam na noite; foram tempos muito legais... Olga era loura, magrinha, tímida meio sem graça, Olgaíde tinha os cabelos castanhos era mais morena e mais atrevida; as duas se toleravam, mas eram; adolescente; conviviam e acabavam se protegendo, eram caseiras e ajudavam em casa.
Lembro-me do “Clube Itapagipe”, há alguns metros do colégio; na praia de bogari; éramos sócios; banho de piscina, baile de carnaval, matinê na boate do clube; as meninas não eram sócias; só a Gracinha; que apesar de ser chata, era divertida, meio sem noção; não namorava negro; pobre então nem em sonhos... E os pais adotivos eram tão bons...
Sabiam que eu não morria de amores por ela, mas fingia não perceber; às vezes sentia pena, mas acho que no fundo gostava dela, não é a toa que convivemos toda adolescência. Também tinha os clubes de regatas; as provas de remo que eram feitas no outro lado da península; perto da casa do tio Adhemar, a raia era em frente e balaustrada ficava lotada; gente de toda cidade, muitos carros, imprensa, etc...
Havia o Clube de Regatas Santa Cruz, que tinha a sede próxima à casa da Gracinha que como tio Adhemar, morava na Av. Mém de Sá; lá rolava festas à noite e foi onde tive o meu primeiro contato com o álcool; nas caixas de som Hawai 50, Jakson’s Five, Secos e Molhados. Uma vez apostaram quem viraria uma garrafa de cachaça em um só gole; prêmio; um beijo do Iran, um carinha louro, com o cabelo cortado como o He-man e com muitas espinhas; hoje ridículo, ontem lindo!
Bebi tudo, não consegui levantar da cadeira, passei muito mal e só pude ganhar o beijo no dia seguinte; sóbria e muito sem graça ao som de - Beija, beija, beija!
Ele foi minha primeira paixão; dramática, sofrida; bem ‘EMO’. Terminávamos e voltávamos sempre; e era um chororô danado; não sei como pude agüentar-me durante esse período, eram juras de amor e brigas; no final quando ele começou a ficar mais bonitinho, com menos espinhas; descurti! Adolescente é foda!!
Agora percebo o quanto tenho sido feliz e quanto tenho sido abençoada por ter lembranças alegres para compartilhar!
Como das nossas vizinhas do lado direito; a da esquerda era a Escola 2 de Julho, a casa da Professora Yêda; mas do outro morava três mulheres de gerações diferentes; uma idosa forte, muito branca e rosada ao mesmo tempo e sua filha, quarentona, alta, muito morena de praia, tinha cabelos compridos cortados a lá Rita Hayworth, era funcionária pública; descendentes de espanhóis; com elas, morava uma moça de uns vinte e poucos anos, negra, muito bonita, doce e meiga, fazia faculdade; era minha professora de reforço escolar e dava aula particular para outros alunos, uma família alegre que se davam bem.
Lembro-me, uma vez durante uma aula sobre combustão, ela pegou um pequeno frasco, colocou álcool e riscou o fósforo o fogo acendeu e a chama começou a bailar colorida linda, na altura do campeonato já não estava ouvindo nada, só ficava vendo o dançar da chama; quando ela foi ficando invisível resolvi avivá-la; peguei a garrafa e fui pôr mais álcool; qual não foi minha surpresa; a garrafa plástica pegou fogo em minha mão; estudávamos no quarto de minha mãe, era tranqüilo espaçoso; varei a garrafa longe; ela bateu na cama e encheu a colcha de fogo e o resto e esparramou pelo chão chegando até a cortina do quanto; foi uma louca em fração de minutos: – Fogo! Fogo!! - Água! Tragam água!! Gritava Célia! Eu só pensava: - Minha mãe vai me matar!!
A casa era térrea, possuía uma varanda antes da porta da rua, depois um corredor cumprido onde tinham dois quartos, o primeiro, o da minha mãe; lindo bem cuidado, com uma penteadeira cheia de perfumes, possuía móveis modernos e claros, e tinha duas janelas que dava para rua, depois vinha o do meu pai que era interligado com o dela, possuía móveis mais antigos e escuros, de madeira trabalhada e o meu dava para sala que possuía sofás, poltronas, uma ‘cadeira do papai’ e uma cadeira de balanço. Meu quarto era normal, duas camas; sempre havia uma prima por lá; um guarda roupa, som, muitos desenhos pela parede, e livros, depois a sala de jantar com mesa grande, cadeiras, cômoda, cristaleira todos de madeira trabalhada, depois vinha à copa a cozinha e um quintal com mais dois quartos no fundo e dois banheiros.
Minha mãe gostava muito da Célia e acabou não brigando muito comigo, o fogo chamuscou a cortina e lambeu um pouco as franjas da colcha, no mais tudo igual. Naquela época comecei a ouvir uma história sobre elas, contada aos cochichos, que eram lésbicas, fiquei sem entender, eram amigas natural que morassem juntas, com o tempo isso virou meio lenda urbana, uns sabiam, outros tinham certeza, outros duvidavam, mas tudo discretamente, a vizinhança malhava a vida alheia com classe.
E a vida seguiu na duvidosa certeza quanto à sexualidade das nossas vizinhas, mas o que se sabe realmente é que eram muito queridas e, com o tempo; “tanto faz como tanto fez”, passou a ser normal. E das cadeiras de lona colorida, colocadas nas portas das casas no final do dia, esperando o sol se pôr; a fofoca da vizinhança rolava solta, atualizando as mazelas e as benesses do dia.


Namastê!