MARIA AUGUSTA CARNEIRO, GUTA; PARA MIM SEU NOME SEMPRE FOI ESPERANÇA! Uma doce emoção toma meu peito, uma mistura de saudade e orgulho por ter te conhecido, por ter podido partilhar pequenas esperanças com você. Você sempre foi SOLIDARIEDADE, Amizade, Afeto, Cuidado, Coragem, Resistência, Esperança, Honradez, e principalmente Mãe. Siga em paz, e contigo leve meu respeito, minha amizade e meu eterno carinho; fico feliz por ter conhecido um ser humano tão especial e humilde como você. A militância pelos Direitos Humanos ficará mais pobre sem a sua presença doce e digna, que balizava ações éticas e justas para proteger a cidadania daqueles que foram colocados à margem do caminho. GUTA; TE AMAMOS!! Essa é para tu ouvir, onde tu estiver!
O Que Foi Feito Devera Milton Nascimento / Fernando Brant / Márcio Borges
"O que foi feito amigo De tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida? O que foi do amor?
Quisera encontrar Aquele verso menino que escrevi Há tantos anos atrás
Falo assim sem saudade Falo assim por saber Se muito vale o já feito Mais vale o que será
E o que foi feito é preciso conhecer Para melhor prosseguir
Falo assim sem tristeza Falo por acreditar Que é cobrando o que fomos Que nós iremos crescer
Outros outubros viram Outras manhãs plenas de sol e de luz."
Mais um dia de sol, daqueles que lembram a infância, o cheiro de mar, dia de claridade e luz. Tempo claro que nos faz sentir aquecidos, que nos dá energia, que nos impele para vida, que nos guia como viajantes que somos sem dia ou hora certa de aportar. Até agora todos os portos continuam fechados para nós, um "cordon sanitaire" nos mantém afastados da vida, da energia, da alegria de compartilhar com o mundo; o farol e o porto ainda é só miragem, mas a claridade antes difusa agora se alegra e se mostra mais nítida, fazendo-nos sonhar com caminhos mais claros e navegar por águas mais tranquilas. A vida de foragido é tensa e estressante, a espera por uma definição de rumos faz a adrenalina ser constante, mas continuo acreditando, tendo fé, que no final, a nau perdida alcançará seu porto e a família poderá enfim compartilhar com os amigos a alegria de viver em liberdade. Viva 13 de Maio!!! E salve os Poetas Brasileiros!
Heróis da Liberdade Silas de Oliveira/ Mano Décio da Viola/ Manoel Ferreira
"Passava noite, vinha dia O sangue do negro corria Dia a dia De lamento em lamento De agonia em agonia Ele pedia o fim da tirania Lá em Vila Rica Junto ao largo da Bica Local da opressão A fiel maçonaria, com sabedoria Deu sua decisão Com flores e alegria Veio a abolição A independência Laureando o seu brasão Ao longe soldados e tambores Alunos e professores Acompanhados de clarim Cantavam assim Já raiou a liberdade A liberdade já raiou Essa brisa que a juventude afaga Essa chama Que o ódio não apaga pelo universo É a evolução em sua legítima razão Samba, ó samba Tem a sua primazia Em gozar de felicidade Samba, meu samba Presta esta homenagem Aos heróis da liberdade Ô, ô, ô, ô Liberdade senhor!"
E ainda sem retomar a história que comecei contar... Poesia e Poetas... Portugueses.
A Geração Nova Sampaio Bruno (Trecho final)
"Vamos: sacudi-vos, reanimai-vos; espertai esse sangue; abri essa alma; bebei o ar divino; vivei! Não vos arreceeis do futuro; e, por ele, tende confiança em vós, que de anões que sois, vos tornareis gigantes; sob os pulmões tísicos de agora, se vos afigurará leve aço glorioso de que se vestem os heróis. Inpirai-vos dos vossos antepassados; recordai que o mugente infinito Oceano, que o mytho povoará de mostros, pelo terror denominado o mar tenebroso, nas suas águas benditas os levou à sagrada terra-mãe da raça, onde o homem aprendeu, nas estrelas do céu, nas tintas das flores, a soletrar o ideal, espiando-o na miríade das formas germinadoras. Com eles eia,eia! Saltai para dentro da nau impaciente. Já o vento enfuna as velas; a vaga espadana, espumando, ciosa de se submeter. Levantai o ferro; ao largo; entregues a Deus, parti intemeratos, a alegria nos lábios, que convosco em boa hora vá singrando a fortuna da pátria! Levantai o ferro, desfraldai o pavilhão no topo do mastro grande, coragem! Ao largo, ao largo, parti."
*** Uns Versos Quaisquer Fernando Pessoa
"Vive um momento com saudade dele Já ao vivê-lo . . . Barcas vazias, sempre nos impele Como a um solto cabelo Um vento para longe, e não sabemos, Ao viver, que sentimos ou queremos . . .
Demo-nos pois a consciência disto Como de um lago Posto em paisagens de torpor mortiço Sob um céu ermo e vago, E que nossa consciência de nós seja Uma cousa que nada já deseja . . .
Assim idênticos à hora toda Em seu pleno sabor, Nossa vida será nossa anteboda: Não nós, mas uma cor, Um perfume, um meneio de arvoredo, E a morte não virá nem tarde ou cedo . . .
Porque o que importa é que já nada importe . . . Nada nos vale Que se debruce sobre nós a Sorte, Ou, tênue e longe, cale Seus gestos . . . Tudo é o mesmo . . . Eis o momento . . . Sejamo-lo . . . Pra quê o pensamento? . . ."
*** "O absoluto é dos poetas e o relativo da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza." O Homem Universal Teixeira Pascoaes
Venho escrevendo como se estivesse escrevendo em um caderno de anotações, em um moleskine, sem a percepção que outras pessoas lêem o que escrevo. Não sou blogueira, só passo o tempo arrumando palavras e fotos para que o tempo seja utilmente preenchido, por isso ainda não tinha me dado conta, das pequenas grandes regras de quem escreve; perdoem-me. Tem um poeta de quem gosto, o Reinaldo Luciano; ele possui o blog CARDIOPOÉTICA, a quem devo desculpas, companheiro já coloquei as "aspas"; gosto muito sim da sua poesia, por isso vou colocá-la no meu blog, só que agora declamada por Érico Brás (ator).
AO SILÊNCIO Reinaldo Luciano
"Não quero o silêncio culto e tácito Das bocas caladas pelo medo; Não quero ouvir os que choram E os que lamentam em segredo...
Não quero minha voz embargada Pela pressão silenciosa Da solidão que não diz nada E da razão que se faz muda...
Eu quero o mundo em polvorosa; Quero a canção, quero o sorriso... Quero gritar, se for preciso...
Não quero o silêncio assim imposto Como um tapa que arde no meu rosto!
Eu quero o silêncio sim, mas quero ainda Poder falar tudo o que sinta; Poder sentir tudo o que fale... Eu quero decidir quando me cale!
Não quero a minha voz presa no peito Enquanto o mundo grita ao meu redor!
Eu quero decidir; é meu direito E não lutar por ele é omissão! Silêncio! Não consigo ouvir direito! Há um barulho estranho no meu peito E não parece ser meu coração!"
***
É estranho saber que me lêem e que estou interagindo com alguém diferente após tanto tempo... Sem mais e ainda com dor...
Nada tenho postado... Dor no nervo ciático. A coluna está desconjuntada; dor do caçete, não dá para pensar... Fui ao médico, agora será preciso me locomover, andar, chutar o sedentarismo, colocar a cabeça para fora e observar o mundo de perto; meu corpo começa a exigir movimento... Como ainda não posso ficar muito tempo na mesma posição, então é conversa rápida, por isso é um oi e um tchau. Vi um texto muito interessante na internet; de um rapaz em uma comunidade do Orkut (Avião também tem pneu), sobre "as mulheres mais cheias", vale a pena lê-lo; depois disso tenho mais é que ficar legal!!.
"Não importa o quanto pesa. É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher. Saber seu peso não nos proporciona nenhuma emoção. Não temos a menor idéia de qual seja seu manequim. Nossa avaliação é visual, isso quer dizer, se tem forma de guitarra... está bem. Não nos importa quanto medem em centímetros - é uma questão de proporções, não de medidas. As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas... Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo. As magrinhas que desfilam nas passarelas,seguem a tendência desenhada por estilistas que, diga-se de passagem,são todos gays e odeiam as mulheres e com elas competem. Suas modas são retas e sem formas e agridem o corpo que eles odeiam porque não podem tê-los. Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura. A elegância e o bom trato, são equivalentes a mil viagras. A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa. Os cabelos, quanto mais tratados,melhor. As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas.. Porque razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam conosco? Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto. Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu reitero: nós gostamos assim. Ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão. É essa a lei da natureza... que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde. Entendam de uma vez! Tratem de agradar a nós e não a vocês. porque, nunca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher. Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda. As jovens são lindas... mas as de 40 para cima, são verdadeiros pratos fortes. Por tantas delas somos capazes de atravessar o atlântico anado. O corpo muda... cresce. Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18. Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo. Nós gostamos das mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas. Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em setembro, não antes; quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (não se saboteia e não sofre); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza. Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza. São feridas de guerra, testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos 'em formol' nem em spa... viveram! O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos. Cuidem-no! Cuidem-se! Amem-se! A beleza é tudo isto."
As vezes me sinto num cinturão de quarentena, um "cordon sanitaire", rodeada de uma indesejabilidade quase palpável. A vida tem me oferecido muito motivos para duvidar do futuro, mas continuo tentando perceber a claridade difusa da esperança que a fé me permite ver. Viver em contínua sensação persecutória é extresse puro, viver esperando o que não se sabe o que; é punk, mas tem forjado em nós uma certeza inabalável no que sentimos. É amigos, falei uma grande bobagem, amar seja lá quem for é sempre uma tarefa prazeirosamente difícil, é sempre um salto no abismo, uma vertigem inimaginável. Não importa se certinho ou não, qualquer um sofre uma transformação positiva quando é amado, o amor cura. Amar é apostar no outro, é perceber-se bem ao seu redor... Enquanto a inspiração luta bravamente contra o tédio... sigo lendo poesia... de Silvia Chueire, de Yeats e Sylvia Plath, ouvindo Adriana cantar...
A PALAVRA Silvia Chueire
"a palavra em ângulo agudo risco no ar adaga a descer sobre o homem
ferida à flor dos olhos. voz letra música a palavra inevitável
II
a palavra a dizer(-se) de algum lugar ave a subir nas minhas mãos a voar delas"
MAR
"cola a tua boca no mar que sou o sal e as ondas derramadas.
ouves o marulhar na respiração ritmada que cresce e desliza na praia?
às vezes é tudo tão azul que ofusca."
QUEREIS MUITO
"quereis a palavra certa na hora certa. não apenas o metro correto, a frase bem feita. quereis o sangue, a alma do poeta, a vida curta a galopar gargantas
— como se não custasse esforço fingir que fingimos —
quereis a vida, a árvore da vida. não apenas o trajeto reto, geometria exata. quereis elipses, parábolas, o sabor mais íntimo a perpassar vocábulos.
— como se cada letra não fosse gota derramada —
quereis o que não sei se posso dar. o segredo do olhar, o frio que me corta a pele antes que a palavra se esfacele e arda na fina folha de cada momento.
— como se cada volta da caneta não fosse hesitação —
quereis muito, senhores, muito. mais do que pode a mão que escreve o poema. mais do que pode um simples coração."
O PRAZER DO DIFÍCIL William Butler Yeats Tradução: Augusto de Campos
"O prazer do difícil tem secado A seiva em minhas veias. A alegria Espontânea se foi. O fogo esfria No coração. Algo mantém cerceado Meu potro, como se o divino passo Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço, Sob o chicote, trêmulo, prostrado, E carregasse pedras. Diabos levem As peças de teatro que se escrevem Com cinqüenta montagens e cenários, O mundo de patifes e de otários, E a guerra cotidiana com seu gado, Afazer de teatro, afã de gente, Juro que antes que a aurora se apresente Eu descubro a cancela e abro o cadeado."
ESPELHO Sylvia Plath
"Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos. Tudo o que vejo engulo no mesmo momento Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo. Não sou cruel, apenas verdadeiro — O olho de um pequeno deus, com quatro cantos. O tempo todo medito do outro lado da parede. Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha. Escuridão e faces nos separam mais e mais.
Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim, Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira. Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua. Vejo suas costas, e a reflito fielmente. Me retribui com lágrimas e acenos. Sou importante para ela. Ela vai e vem. A cada manhã seu rosto repõe a escuridão. Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível."
Mais um dia de sol... E tudo está ainda para acontecer... A felicidade plena, real ainda está por vir... Tem sido assim há muito tempo, uma vida adiada, protelada. Nunca antes tinha percebido a densidade do tempo, o seu peso, a pressão do vácuo do nada que é a espera, a opacidade dos dias que passam pela janela como um filme do qual somos apenas espectadores. E fico tentando enxertá-lo com coisas positivas, agradáveis, para que as vibrações sejam de harmonia. Leio, leio, leio muito, cozinho e tenho aprendido coisas deliciosas; quase não saio, nunca soube “chutar lata”, andar sem rumo, andar por andar, sempre saí com destino certo, sempre tive uma direção, e ainda não aprendi só olhar o horizonte e ir, então sento e leio e com isso ando, corro, pulo, viajo, nas folhas impressas que tanto amo. Mas a Vida tem me chamado par andar com ela, me divertir ao seu lado; tem me sussurrado que não devo levá-la tão a sério, que é multifacetada e colorida, e às vezes um tanto quanto “purpurinada”, e que não devo olhá-la só pela lente do preto e branco; ela fala baixinho para eu ter esperança, para cofiar nela e no seu amigo Tempo, diz que apesar de eu vê-lo opaco e denso ele é belo e sábio; ela me acena com a possibilidade de confraternizar com os amigos, de dividir carinho, de pedir perdão. Fico pensando como outras mulheres como eu estão reagindo agora, como encaram a vida enquanto estão no olho do furacão, como se sentem enquanto a vida passa, enquanto observam o tempo. Será que reagem de forma menos tensa, será que conseguem viver com alguma leveza? Quantas somos? Quantas vivem assim esperando que as pessoas que estão em nossa volta perceba a nossa invisibilidade, que nos conceda uma chance de fazer diferente, de fazer a diferença. Sei que fiz a diferença na vida do homem que escolhi para envelhecer, sei que trouxe esperança, alegria e principalmente amor, esse sentimento milagroso que nos tem conduzido vida afora e sei também que muitas outras mulheres desempenham esse papel na vida dos seus companheiros. Sei que o ajudei a compreender o seu lugar na família, na vida e na sociedade, sei que ofereci meu ombro, meu colo, minha amizade, minha solidariedade, minha lealdade, para que ele pudesse se perceber possível, viável, merecedor da vida. Nem todas as mulheres torcem para que seus maridos se especializem na arte da 'gatunagem', muitas estão sim exercendo o papel de ‘resgatadoras’, as duras penas, na maioria das vezes isoladas, torcendo para que a vida lhes dê uma chance e tudo volte ao normal. De onde estou vejo o céu, limpo, claro, simplesmente azul, há flores na minha janela, coloridas, e dançam ao sabor do vento outonal... Da minha janela vejo mulheres trabalhando, concentradas sobre máquinas de costura e me pergunto; será que alguma delas, depois de uma semana estafante de trabalho, terá que ficar nua em uma sala infecta de algum presídio, abaixar três vezes e soprar a mão fechada para que uma outra mulher veja se cai alguma coisa da sua vagina? É meus amigos, amar o ‘certinho’, é fácil, difícil é entrar na vida de um homem infrator e fazê-lo perceber o quanto ele é importante para você e para ele mesmo, e o quanto é possível construir mesmo em base muitas vezes instável, uma vida digna. Me sinto vitoriosa por tê-lo, por sabê-lo meu parceiro, pai dos meus filhos, meu amigo, meu companheiro e no final das contas, apesar de tudo, sou feliz! O amor continua nos conduzindo vida afora.
Domingo de sol... Que a semana seja porreta, que nos traga alegrias desmedidas. Mas enquanto a liberdade não vem... Segue mais um texto de 2004.
TRABALHO E PRISÃO
“Uma reflexão sobre a pena, ou seja, sobre o papel e os limites da sanção penal, especificamente da pena carcerária em uma sociedade democrática, exige uma avaliação inicial sobre o que se deve entender por sociedade democrática.” Luigi Ferrajoli.
O trabalho de resgate do cidadão encarcerado pressupõe a capacidade da psicologia, da sociologia, da assistência social, etc, de transformar a personalidade do preso, mediante trabalhos técnicos e educativos, realizados no interior da prisão. Sabemos do fracasso do projeto técnico-corretivo e da reiterada proposição do mesmo projeto fracassado, mas acreditamos na capacidade de mudança e na persistência daqueles que estão comprometidos com o resgate dos cidadãos presos. Trabalhar com as questões subjetivas da prisão é um grande nó a ser desatado. As relações no mundo marginal tanto quanto a sociedade sofreram mudanças ao longo dos anos, as ações marginais sofreram alterações na sua forma, na sua prática e no perfil do autor da ação. Essas ações tiveram transformações básicas e visíveis nas últimas quatro décadas, com movimentos horizontais e verticais. Nas décadas de sessenta e setenta as ações marginais tinham um movimento horizontal, possuíam o perfil de ação grupal, era um “crime associativo”, praticado por adultos que dividiam o lucro de forma igualitária; “eram sócios”. A partir da década de oitenta com a comercialização visível das drogas, as relações interpessoais mudaram e as ações verticalizaram-se, tornaram-se de cunho capitalista, onde o comércio ilegal gerou postos de trabalho, hierarquia e lucro, mudando o seu perfil e a característica do autor que agora é jovem. Nesta perspectiva se faz necessário observar esse novo ator e adaptar novas metodologias para trabalhar com esse público jovem, consumidor, imediatista; como todo jovem, e que por ser na maioria oriundos dos cinturões de pobreza do estado ou dos morros e favelas da cidade, vêem no comércio ilegal ou em outras atividades marginais, um meio rápido de resolução da sua invisibilidade social; sem falar dos jovens da classe média que também começam a conhecer os cárceres do mundo globalizado. A sensação de supremo poder é característica do jovem, junte-se a isso uma arma; que nada mais é do que um símbolo fálico, o poder que exerce na sua comunidade, o fascínio que exerce sobre as jovens e a adrenalina dos dias viris de perseguição, para termos um quadro extremamente desagregador e explosivo. O jovem envolvido na marginalidade atinge hoje, com a idade muito tenra um patamar social dentro da sua comunidade que, um homem só alcança quando atinge a maturidade profissional. Aos jovens é oferecido uma “pseudo” estabilidade financeira, o respeito/medo da comunidade, e uma enorme profusão de parceiras; status este, que só o poder oferece, mas não possui maturidade emocional para administrar esses avanços de etapas; não há planos, não há sonhos, não há futuro, tudo é imediato, tudo é urgente e fatalmente finito. Esse jovem infrator que está permeado no tecido social, só é detectado para fins correcionais; não há um investimento no futuro, na perenidade do bem através do resgate dos indivíduos. Trabalhar a recondução do preso através de atividades laborativas e educacionais, deveria ser o objetivo principal da execução da pena; capacitar o indivíduo para o trabalho é o caminho de integração do egresso com a sociedade. A absorção de conhecimento é ferramenta fundamental para o retorno do homem ao convívio social; é oferecer instrumentos capazes de garantir que ele possa ter escolhas não danosas a si, a sua família e a sociedade em que ele vive. A porta de entrada do sistema; unidade que recebe todos, para posteriormente distribuí-los pelas outras unidades; é a vertente que detecta e situa o preso dentro do novo contexto; preso esse, que deveria ser distribuído conforme, à tipificação do seu delito, de suas características educacionais, da sua capacidade laborativa, além de tantos outros critérios que se fizessem necessários para que se tenha unidades com perfis definidos para cada etapa da execução da pena, e seja compatível com o perfil do indivíduo apenado. O trabalho deve se iniciar logo que o interno chega à prisão, para que se possa trabalhar com a perspectiva de transformação desse indivíduo, e só um processo pedagógico contínuo faz com que o preso reformule suas idéias e busque novas alternativas para sua vida. Se faz necessário investir no trabalho e na educação nas unidades prisionais de forma urgente; só o envolvimento desse jovem com as atividades educacionais, culturais e laborativas, pode oferecer parâmetros reais para obtenção de benefícios e uma perspectiva diferente da reincidência. Envolver as unidades em um trabalho educacional contínuo, é minimizar conflitos, é possibilitar o acesso a poderosos instrumentos de cidadania; o trabalho, a informação, o conhecimento. É importante envolver as Organizações Não-governamentais, as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, e outras instituições, nas atividades intra-muros; suas metas e avanços estarão refletidos não só nos relatórios de progresso, de impacto e em outras mensurações, mas acima de tudo se refletirá qualitativamente na mudança do indivíduo encarcerado e na sua possibilidade de voltar ao convívio social em condições e competir no mercado de trabalho. As Universidades e outros Centros de Ensino devem ser envolvidos nessas ações, através da criação de um Banco de Horas Trans-disciplinar, para oferecimento de suporte técnico. É preciso avançar, implementar em definitivo a Lei de Execução Penal, que responde com eficiência, as questões de execução da pena, e observando como diz J. Kaplan que “a sabedoria de uma lei deveria ser determinada em termos pragmáticos comparando-se os custos que impõe à sociedade, aos benefícios que traz”.